VESTINDO AROMAS

Curso sobre a Cultura do Perfume retorna em sua 5ª edição, em Juiz de Fora.

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Profa. Dra. Isabela Monken ©Divulgação.

“Se a roupa revela a mulher, o perfume a antecede e a prenuncia.”  – Isabela Monken

Uma das experiências mais marcantes para as pessoas sinestésicas, capazes de estabelecer um vivo cruzamento entre os sentidos, é enxergar cores em fragrâncias ou sentir um perfume especial através da lembrança de um lugar.

Mesmo encantamento vivido, por exemplo, pelos sujeitos mais sensíveis que, a cada página lida de Patrick Suskind em O Perfume, foram capazes de sentir de forma evidente todos os aromas descritos pelo narrador.

E é para esses amantes do universo das fragrâncias que tenho uma boa notícia.

Em sua quinta edição, o curso de extensão “Vestindo os Aromas: Cultura do Perfume, Cultura de Moda e Outros Acordes” acontece nos dias 25 e 26 de março, na Casa de Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora.

O universo da moda e da perfumaria será abordado através da apresentação do estudo e incursões de importantes pesquisadores, cerca de 24 no total, entre doutores, mestres, especialistas e graduandos, numa rica experiência para o público.

O evento, coordenado e organizado pela Profa. Dra. Isabela Monken (IAD/UFJF), apresenta por 16h um conteúdo essencial – com o perdão do trocadilho -, para quem se interessa pela cultura do perfume e seus cruzamentos.

Isabela é a cabeça do grupo de pesquisa e da linha “Interfaces da Moda: saberes e discursos”, além de organizadora do livro Cultura do Perfume, Cultura de Moda e Outros Acordes, lançado pela Editora da UFJF. O título conta com a participação de pesquisadores de todo o país, reconhecidos no campo da cultura, moda, arte e perfumaria.

Conversei com ela por email, que revela algumas notas do seu profundo conhecimento sobre o assunto, o qual irá compartilhar com público no curso. Em suas palavras, um pouco de história da perfumaria, sua contaminação pela moda, tendências e, no ar, curiosamente deixa um rastro da fragrância Chloé, que tanto adora.

Isabela na 1ª Bienal do Livro de Juiz de Fora, autografando “Cultura do Perfume, Cultura de Moda e Outros Acordes”. ©Divulgação.

RAQUEL GAUDARD: De que forma a cultura da perfumaria e da moda se tocam?

ISABELA MONKEN: “Materiais aromáticos sempre foram utilizados pelo homem, desde a descoberta do fogo, quando se observou que a queima de determinados elementos propiciava uma fumaça fragrante. A própria etimologia da palavra perfume, oriunda do latim per fumum (através da fumaça), revela sua estreita relação com a história da humanidade. Os materiais fragrantes transitam do sagrado ao profano.

No Mundo Antigo, acreditava-se que a queima de determinados materiais aromáticos possibilitava o contato com os deuses. Na Bíblia, um dos primeiros presentes ofertados pelos Reis Magos a Jesus foram ouro, incenso e mirra.

Saindo do âmbito sagrado, o perfume encontrou terreno fértil no mundo profano, nos rituais de sedução e nos discursos da moda e de seus símbolos. A família real francesa, quando tentou fugir, durante a Revolução, teve o cuidado de tentar preservar e manter seus perfumes. Maria Antonieta conseguiu se disfarçar parcialmente, mas o perfume que dela emanava a traia, entregando-a.

No mundo contemporâneo, no âmbito da moda internacional, os perfumes, além de constituírem um importante pilar da construção simbólica de grandes marcas, muitas vezes, viabilizam, ao lado dos cosméticos, a sustentação econômica das casas pelo volume de vendas que representam.

A relação perfume/moda/criador inicia-se de forma expressiva em 1910, com Paul Poiret. Ele lançou o perfume Rosine (nome de uma de suas filhas) e participou, inclusive, de sua elaboração. Mas foi Chanel que, nos anos 1920, marcou ostensivamente a relação do perfume com os criadores com seu icônico Chanel Nº5, concebido por Ernest Beaux. Dior, outro visionário, compreendia muito bem a dimensão sinestésica da moda: para lançar o que viria a ser seu famoso New Look, pulverizou generosamente o salão do desfile com Miss Dior e abriu a divisão de perfumes de forma quase concomitante com o a divisão dos vestíveis.

Se a roupa revela a mulher, o perfume a antecede e a prenuncia.”

RAQUEL GAUDARD: Existem tendências de aromas ou fragrâncias para uma determinada temporada? Qual é a de 2017?

ISABELA MONKEN: “Certamente! Os perfumes traduzem o espírito do tempo em que são produzidos. Pensemos, por exemplo, no romantismo floral de algumas fragrâncias dos anos 1950, período em que a moda privilegiou os ícones de feminilidade. Já nos anos 1970, em que a estética hippie marcava as passarelas, Saint-Laurent, muito atento, lançou Opium com suas notas místicas, orientais.

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O estilista Yves Saint Laurent no lançamento do perfume Opium, em 1978. ©Reprodução.

Neste sentido, hoje em 2017, período de fortes hibridismos estéticos, considero arriscada uma abordagem diretiva da tendência. Podemos, contudo, registrar o gosto vivo e desperto pela simplicidade transcendente, o vínculo com aquilo que sugere uma essência genuína. Se a Pantone definiu para 2017 o tom Greenery, verde musgo com amarelo intenso, como a cor do ano, podemos sim, nos perguntar: que cheiro essa cor teria?

Aí está a minha aposta: simplicidade, viva e acordada, com notas terrosas que traduzam a comunhão com a natureza e a ideia de renascimento. Neste convite temático, muitas famílias olfativas podem imperar, felizmente. Como não sou perfumista, apenas amante dessa arte em seu diálogo com a cultura, prefiro não ousar demais em minhas apostas!”

RAQUEL GAUDARD: Perfumaria artesanal X perfumaria comercial: o mundo da moda aponta para um retorno ao handmade, o artesanal é cada vez mais valorizado. É possível dizer que também existe essa tendência na perfumaria, ou seja, se a perfumaria artesanal, personalizada, encontra-se de novo em evidência, como na sua origem?

ISABELA MONKEN: “Assistimos hoje, principalmente no âmbito internacional, a um crescimento do perfume personalizado, feito com exclusividade para atender ao gosto do cliente, seus desejos e preferências. Sabemos, entretanto, que buquês muito complexos, por vezes, requerem a junção de alta tecnologia com materiais naturais ou artificiais de boa qualidade. Ou seja, a criação artesanal tem seu nicho de mercado e vem se ampliando, inclusive no Brasil, mas ela, certamente, esbarra nos seus próprios limites e possibilidades.

As possibilidades de criação tornam-se certamente expandidas quando observamos as novas sintaxes olfativas propiciadas por grandes laboratórios e recursos técnicos da indústria dos perfumes e materiais fragrantes. Há, no entanto, perfumes personalizados, de alto luxo, produzidos em locais pontuais da França que chegam a custar até mesmo cerca de 100 mil reais, com kits luxuosos e complexos, produzindo-se algo semelhante a uma roupa de alta-costura com seus clientes seletos.”

RAQUEL GAUDARD: Quem são os maiores e melhores produtores de perfumes do mundo? Em termos de qualidade a França ainda é referência?

ISABELA MONKEN: “À exceção das poucas casas de moda ou de perfumes que têm seu próprio nez, como Hermès, Chanel, Guerlain, Dior, para a maioria delas, o que se observa é a contratação de um profissional ou uma equipe de perfumistas de multinacionais que irão criar desde o cheiro do carro, do amaciante, chegando-se também ao perfume, são os chamados big boys – termo descrito por Chandler Burr.

Dentre eles, podem-se destacar: IFF (International Flavors&Fragrances (EUA), Givaudan Roure e Firmenich (Suiça); Symrise (Alemanha) e Takasago (Japão). Como se pode notar, o perfume não é mais uma exclusividade francesa, mas a França goza, certamente, de seu capital simbólico e cultural o que confere credibilidade e know-how a seus produtos. A cidade de Grasse, por exemplo, é ainda hoje um ícone histórico do turismo cultural do perfume.”

RAQUEL GAUDARD : Quem é o “nariz” mais famoso do mundo atualmente?

ISABELA MONKEN: “Certamente, ele não está só no posto de perfumista famoso, divide este lugar com muitos outros. Gosto muito, por sua visão de partilha do saber, de Jean Claude-Ellena, antigo perfumista da Hermès – aposentou-se, recentemente, em 2016, e Christine Nagel assumiu sua cadeira. Ele se destaca entre os perfumistas do século, sabe transitar na cultura do perfume, na moda, na arte e na literatura. Um perfumista raro na capacidade de nos fazer compreender a Cultura do Perfume.

Seu conceito de luxo: ´Gosto do prazer quando ele é compartilhado. Essa é minha definição de luxo.´ Sugiro, inclusive, a leitura de seu livro, com tradução para o Português: Diário de um Perfumista – livro imprescindível e inspirador para os amantes desta arte.”

Daniel Pereira

Diário de um Perfumista (Record): “imprescindível e inspirador”. 

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SERVIÇO

O que: 5º Curso de Extensão Vestindo os Aromas: Cultura do Perfume, Cultura de Moda e Outros Acordes. 

Quando: Dias 25 e 26 de março

Onde: Casa de Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora – Avenida Rio Branco, 3372

Hora: 8h às 12h / 14h às 18h – carga horária 16h

Valor: GRATUITO

Inscrições: de 14 a 20 de março via email: ufjfvestindoaromas@gmail.com

Enviar nome completo, endereço, cpf, telefone, formação acadêmica ou área de atuação.

Vagas Limitadas, a pessoa deve aguardar retorno com a confirmação da inscrição.

Emissão de certificado de participação para quem cumprir no mínimo 75% da carga horária do curso.

 

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