8 DE MARÇO: UM DIA PARA LEMBRAR

8 de março é comemorado no mundo todo como o Dia Internacional das Mulheres, mas poucas pessoas sabem realmente sobre a sua história, na verdade nada festiva ou comercial.

Ao contrário, é um momento de relembrar a luta das mulheres pela igualdade de direitos e marca, ainda e não só, a memória das 146 operárias mortas num incêndio de uma fábrica em Nova York em 1911, a maioria delas costureiras.

Categoria da moda que até hoje é vilipendiada com salários e condições de trabalho muitas vezes desumanas – vide escândalos de grandes redes de varejo na contratação de serviços terceirizados.

Desde os mais remotos tempos – vale lembrar de Hipátia, filósofa, astrônoma, matemática – o protagonismo feminino foi visto como ameaça e o resultado foi que ao longo da história muitas mulheres foram vítimas por ousar emancipar-se, por querer ocupar espaços tradicionalmente a elas negados.

Mas seguimos resistindo e operando em nossa melhor forma, por que sim, nós podemos. E então veio a ideia de pedir um depoimento de algumas mulheres que atuam no mercado da moda local, em Juiz de Fora, sobre seu papel, desafios, perspectivas.

Lembrando sempre que: lugar de mulher é onde ela quiser.

Cida Costa dos Anjos – estilista e modelista

Cida Costa dos Anjos. ©Divulgação.

“Sou neta de alfaiate e desde muito pequena ficava observando e curiosa para entender aqueles riscos que meu avô fazia para dali surgir um terno. Não entendia nadinha e ele também não me explicava o porquê de tantas linhas naquele plano. Fui crescendo e cada vez mais me apaixonando pela costura.

Foi aos meus 12 anos que minha mãe – que também não entendia muito de costura, na época -, se arriscou cortando uma camisa social de manga curta para o meu irmão pequeno e mandou que eu costurasse, usando apenas linha e agulha de mão.

Daí fui me arriscando a cortar os tecidos mesmo sem ter nenhuma noção de corte e costura. Como fui criada e passei toda minha adolescência na roça, eu aproveitava as poucas festas que eu ia da igreja em que eu frequento para observar o que estava usando e dali tirar inspiração para criar as minhas próprias roupas.

Em 1997, tive oportunidade de vir para Juiz de Fora e ter mais contato com moda. Quando eu não entendia como uma peça era feita eu ia em alguma loja, pedia para experimentar e dentro do provador eu observava com atenção como era feita – e foi assim que aprendi a costurar.

Nesse mesmo ano, fui trabalhar numa confecção como costureira, onde pude aprender mais um pouco sobre moda. Porém, não satisfeita e querendo um pouco mais, foi então que surgiu o desejo de cursar uma faculdade de moda. Me matriculei na Faculdade Estácio de Sá e após alguns semestres resolvi transferir-me para O Curso de Design de Moda CES/JF onde me formei em Design de Moda, no segundo semestre de 2015.

Hoje eu trabalho somente com moda festa para formandas, madrinhas noivas debutantes e etc. Atuar no mercado de moda em Juiz de Fora eu digo que é uma conquista a cada dia, pois o campo aqui não é muito vasto para confecção de alta costura, sendo mais voltada para costura industrial. Além disso, existe pouco investimento em matéria prima para confecção de roupas especiais e diria também que há um certa escassez de mão de obra nesta área.

E o preconceito infelizmente ainda impera em diferentes situações. Há um tempo atrás fui numa loja de tecido no centro da cidade e pedi que o vendedor cortasse para mim 5 metros de microfibra importada. Ele me disse:  “esse tecido é caro, posso cortar linhão? É mais barato.” Eu disse que não, por que meu cliente pediu pra fazer a peça com microfibra importada. E ele insistiu: “mas esse tecido é caro.” Aí fiquei brava e disse: “como você quer receber? Posso te pagar em dinheiro, à vista, no cartão ou cheque, qual você prefere?” Sem graça, ele baixou a cabeça e cortou o tecido que eu queria.

Numa outra ocasião, uma cliente chegou em meu ateliê e falou: “quero falar com dona do ateliê.” Eu disse: “sou eu mesma.” Então ela me olhou e repetiu: “mas eu quero falar é com a dona do ateliê.” Pensei comigo: “será que porque sou negra e ela acha que não posso ser dona do ateliê?” Apesar de hoje se falar muito em igualdade, o preconceito ainda existe. Quando algo é desempenhado por um negro de forma destacada dispõe–se de uma divulgação mais focada, como se isso fosse algo anormal de se acontecer.”

Aline Firjam – editora de moda, diretora F.Works Produtora

Aline Firjam em evento produzido pela F.Works Produtora em 2016. Foto ©Nayana Mamede.

“Desafiador sempre e hoje, com as multi-tarefas, mais ainda. Hoje a experiência já abre portas e ameniza o caminho, mas desbravar foi muito difícil, ainda mais no ramo da moda e em eventos… Mas tem sido muito prazeroso fazer conquistas, desde o início!
Fornecedores e parceiros que viraram amigos queridos, que conquistei com trabalho sério e transparente.

Olhar a moda hoje na cidade e lembrar de como era quando comecei, principalmente voltada para a educação, com as faculdades hoje dá uma enorme alegria! E hoje sou mais feliz e realizada por poder ter voltado às salas de aula.”

Helena Gomes de Sá – blogueira de moda

Helena Gomes de Sá. Foto ©Mateus Aguiar.

“Como mulher gorda e como blogueira de moda, não foi fácil pra mim entrar em ambientes que nunca foram amigáveis e receptivos para gordos. Posso afirmar que ainda acontece em âmbito nacional e mundial. A moda não é feita e pensada para pessoas gordas. Esse cenário muda lentamente, acompanho e participo dessas mudanças.

Desde que comecei meu blog, há sete anos, já abriram diversas lojas nacionais online e físicas. As fast fashion começam a arriscar, mesmo que timidamente na moda plus size. No entanto, o mercado em Juiz de Fora é quase nulo.

Temos desde sempre aquelas lojas antigas para senhoras, com roupas de festa e dia a dia parecendo cortinas e estampa de sofá. Temos lojas que trazem modinha de Petrópolis e do Braz, até mesmo algumas lojas que oferecem multimarcas de moda plus size. Porém é sempre mais do mesmo, mulheres jovens e gordas da cidade não tem opção de moda.

Como influenciadora da área, (a única da cidade que aborda e é gorda), nunca fui convidada por essas marcas, não as consumo. Já vi inclusive marcas direcionadas ao plus size convidarem blogueiras padrão para divulgar a marca. Ou seja, quem trabalha com moda PS na cidade ainda tem preconceito com seu próprio público. Não quer ver sua marca associada a imagem de uma mulher realmente gorda. Essas lojas em geral não se assumem, e quando o fazem, não sabem dialogar com a mulher jovem e moderna gorda. Não sabem o que nós queremos.

Conheço algumas marcas novas da cidade, que vendem online e presencial, que tem estilo moderno, passam a ideia de inclusão, tem moda jovem, pregam conceitos avançados como peças genderless, porém, roupa para gordos ainda é tabu. Ou seja, mesmo nos mais antenados meios, a gordofobia ainda é tendência. Gostaria muito de trabalhar mais para o crescimento, e a evolução da moda plus size e moda alternativa de Juiz de Fora.

Poder mostrar no blog em editorias também as marcas daqui, pois sempre sou questionada pelas leitoras da cidade, sobre onde encontro minhas roupas. E é chato dizer pra elas que a cidade que moramos não tem opções para nós. Apesar da minha visão realista, torço e quero participar ativamente de uma mudança séria, pensada para nós, sem medo e sem preconceitos.”

Ana Paula Calixto – professora, colunista e consultora de moda

Ana Paula com sua turma do curso de Design de Moda da Estácio de Sá/JF. ©Divulgação.

“Atuo como professora no curso de Design de Moda da Estácio há 8 anos, antes já me dedicava à produção de moda, tive minha própria marca com fábrica e loja, e atuo como consultora de moda e tenho minha coluna no Diário Regional, há 6 anos. Nunca sofri preconceito por ser mulher no mercado de moda, pelo contrário, acredito que nós mulheres circulamos muito bem neste meio!

O mercado de moda em Juiz de Fora está sofrendo as consequências da crise assim como vários segmentos da economia, mas sabemos que toda crise gera oportunidades e este é o papel do profissional da moda: criar novas perspectivas de atuação, gerar novas formas de vender e pensar a moda.

Os desafios diários no mundo da moda, principalmente como professora, é instigar os alunos a pensar a moda sob outras perspectivas, aguçar a criatividade, estimular o diferencial de cada um.”

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