INCOMING • MODA DE AUTOR

Por Alice Linhares
Matéria publicada pela Revista F. Cultura de Moda #17

A Lada / Ressignificação e novo luxo

A moda surgiu desde cedo nas vidas de Hanna Coura e Juliana Furtado. As duas são de Juiz de Fora, cursaram faculdade de moda na cidade e, juntas, decidiram criar a marca A Lada, em junho de 2015. Elas contam que apesar de nunca terem sido tão focadas em tendências, sempre sentiram a presença da moda de maneira natural. “Desde jovens, trabalhamos o nosso senso estético na maneira em que nos vestíamos, nos expressando através dela”, explica Hanna.

Antes de criarem a marca A Lada, Juliana e Hanna já traziam uma pequena bagagem referente às suas áreas específicas. Hanna conta que trabalhou por algum tempo na fábrica de sua mãe e que desde pequena teve contato com a criação de peças em tricô. Já Juliana trabalhou com marketing e criação para outras marcas, agregando o conhecimento da publicidade à moda. Foi depois disso que surgiu a inspiração para o projeto em conjunto. “A marca nasceu do desejo de desenvolver peças com materiais que, normalmente, seriam descartados indevidamente pela maioria das empresas do mundo têxtil. Nós tentamos, principalmente, ir contra o grande fluxo de desperdício que já se tornou frequente para as grandes marcas. Essa proposta, além de contribuir para uma produção consciente, resulta em peças únicas e de grande qualidade, cada uma com sua característica e sua história”, conta Juliana.

Indo contra os padrões de lançamentos de coleções em épocas específicas, elas explicam que desejam seguir um caminho diferente. “Preferimos criar pequenas coleções de tempos em tempos do que nos prender à ditadura das tendências de cada mudança de estação. Criamos aquilo que temos vontade de usar, nenhuma peça é produzida apenas para fazer volume na arara. Temos carinho e desejo por todas elas, chega a ser até difícil conseguir resistir a pegar todas para nós!”

Atualmente, as duas dedicam-se exclusivamente à marca, acompanhando o processo de produção na fábrica – que é todo manual, passando pelo corte até chegar às etiquetas. Hanna comenta sobre as dificuldades pelas quais já passaram durante a trajetória. “Começar um empreendimento em tempos de crise não foi uma tarefa fácil e, por sermos jovens, demoramos um pouco para conquistar a credibilidade de clientes em potencial”. Mesmo assim, entre os planos para o futuro, elas buscam a expansão. “Desejamos realmente viver e concretizar nossas ideologias, não usando isso como uma ‘jogada de marketing’. Buscamos a expansão, tanto como marca, quanto como seres humanos, sem deixar para trás nossa essência e nossas raízes, aprendendo cada dia mais com nossos erros e acertos”, completa Hanna.

Larissa Simão / Novas formas e funções para o design e a moda

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Ainda estudante do Bacharelado em Moda da UFJF, outro nome que trazemos em destaque nesta coluna é o de Larissa Simão. Prestes a concluir o curso no próximo semestre, ela foi, pouco a pouco, construindo sua trajetória na moda, principalmente através da pesquisa e da experimentação de formas e funções.

“Em meus estudos, tento ampliar os horizontes. Como iniciei no design, me relacionava bem com a parte mais técnica dos projetos, o que tentei desconstruir assim que mudei para as artes, buscando mais liberdade criativa. Mas com o tempo, percebi que um pensamento complementa o outro e que deveria fazer uso do conjunto para obter resultados mais completos. Na moda, fui então construindo a consciência de pensar em produtos que possuam um diferencial, tanto de forma, quanto de função. Estudar as maneiras de produzir e os impactos da criação, consequentemente, nos faz pensar em um mercado diferenciado, menos competitivo e mais consciente.”

Em 2014, Larissa tornou-se integrante do grupo de pesquisa Cor e Forma, no Instituto de Artes e Design da UFJF, mesclando fundamentações teóricas com exercícios práticos. Unindo as áreas de arquitetura, moda, design e educação, as pesquisas passaram a dar prioridade à atemporalidade, ao consumo saudável e à relação emocional da pessoa com o produto.

Seu projeto foi o “Casaco Mutação”, iniciado em produção livre do tecido sobre o manequim. A conclusão culminou em um artigo publicado e, também, no 1º lugar no Prêmio Bornancini de Design. Ela conta que decidiu participar do prêmio por perceber que tinha em mãos um vestível diferente. “Logo pensei que valia a pena tentar e experimentar ser avaliada por um júri, colocando minha ideia em prova. O ‘Casaco Mutação’ é multifuncional, pode ser usado como casaco ou colete.

Seu conceito parte da ideia de adaptação a diferentes situações que enfrentamos em nossa jornada: mudanças de tempo, praticidade na mala de viagem (já que se leva uma peça com mais de uma forma de uso) e variações de aparência com versatilidade para sentir-se confortável transitando em diferentes ambientes. O casaco também foi pensado para durar por várias estações. Alheio aos modismos, contribui para reduzir o consumo excessivo, se contrapondo à produção em massa da indústria.”

Profundamente inserida no campo acadêmico, Larissa comenta que aproveita a disponibilidade de orientação dos professores para aprimorar o pensamento e a execução das ideias que tem, além de estudar melhor as questões do mercado em que pretende se inserir. “Minhas inspirações e referências são sempre bastante diversas, não necessariamente sigo algum criador ou corrente estética, mas deixo somar toda nova informação visual que me agrada.

As ideias surgem de alguma necessidade que encontro ou da criação livre. Meu processo criativo é muito baseado na experimentação. A observação é um ponto bastante importante, gosto de analisar os detalhes, visualizar as formas com calma e interferir até que se tornem agradáveis ao olhar. Observar a reação das pessoas em relação a meus produtos também costuma indicar novos caminhos e correções.”

Entre os planos para o futuro, ela conta que está em processo de desenvolvimento de uma marca própria, de produção manual, que funcionará como um atelier. “A Maria Pissolati irá reunir tudo que gostei de fazer até hoje, principalmente as roupas, mas também acessórios e uma produção mais artística – por exemplo, de croquis. Pretendo fazer uso das técnicas que aprendi de frivolité, bordado, estamparia, somando-as aos produtos. Acredito que o principal desafio para quem estuda moda é saber definir exatamente com o que se quer trabalhar. É preciso transitar e experimentar para se encontrar. Já para ingressar na carreira como criador, o desafio está na manutenção de um diferencial que conquiste um lugar de estabilidade no mercado, para conseguir fazer da moda o seu meio de vida.”


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