FUNKIS – DESIGN AO ALCANCE DAS MÃOS

Por Raquel Gaudard.

Artigo publicado pela Revista F. Cultura de Moda #17.

O design escandinavo não tem a ver só com a Ikea, mas muito – ou quase tudo – do seu pensamento está ali. Simples, nem por isso menos belo – ou talvez mais elegante ainda, justamente e portanto -, é inspirado pela natureza e pelo o clima do extremo norte.

A filosofia do design escandinavo é ser acessível e estar disponível para todos: uma visão contemporânea e até, digamos, futurista do mundo. Um mindset que valoriza o coletivo acima do individualismo, associando materiais naturais e artesanato tradicional.

Longos invernos e poucas horas de exposição à luz do sol levaram os designers escandinavos a criar ambientes claros, iluminados e práticos. A ideia era (ou é) transformar o espaço doméstico num lugar o mais funcional possível, com todos os objetos ao alcance das mãos. Casa prática, como deve ser para viver, e confortável na medida, para receber.

O mundo à nossa volta está cada vez mais complexo e, por isso, o espírito do tempo vem em busca da essência das coisas, do lado mais simples, effortless, descomplicado da vida. A literatura especializada conta que o estilo escandinavo atual é filho das artes decorativas do princípio do século XX, aquelas mais sutis e das linhas elegantes que dominaram a estética do período entre guerras.

O termo FUNKIS reflete bem a ânima do design escandinavo, cujo foco repousa sobre a necessidade ou função das coisas. Mas podemos ir mais atrás na linha do tempo do mundo real, para entender a origem de tudo isso também.

GOKSTAD

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Gokstad é o nome de uma embarcação viking (800-1100 a.C.), símbolo da cultura normanda: trata-se de um barco pequeno – se comparado às grandes naus que geralmente eram utilizadas para os mesmos fins -, leve e veloz, construído para viagens longas, para singrar os mares carregando apenas o essencial, entre seu próprio peso, dimensões e espaço interno.

Há aí uma metáfora interessante, assinalada por Kenneth Clark, em seu livro “Civilização”: “Se quisermos um símbolo do homem do Atlântico em contraste com o homem do Mediterrâneo – um símbolo que se oponha ao templo grego, estático, pesado – teremos de procurá-lo no barco viking”.

Isto posto, vale lembrar também que os vikings eram nômades e invasores, em constante fluxo. Não eram dados a construir casas ou escrever livros – características consideradas símbolos de uma civilização.

No entanto, encontram-se vestígios de habitações, construções que, mesmo precárias, estabeleciam a ligação desse povo com um ponto situado no tempo e espaço, uma ligação entre um futuro e um passado.

CASA COR E NÃO SÓ

Seguindo mais adiante na história, agora mesmo em 2016, e nos descolando um pouco da estética noir e tribal dos antepassados escandinavos – apesar de Ragnar Lodbrok seguir como protagonista no imaginário do fandom assíduo da série “Vikings” –, é no design de interiores, talvez, que o scandi style ganhe mais espaço hoje em dia.

A Casa Cor São Paulo edição 2016 apresentou muitos ambientes com referência ao estilo, um reflexo desse revival da influência vinda dos mares do norte – não só no Brasil, mas no mundo todo. Revival, pois, vale lembrar, nomes como o designer Arne Jacobsen e sua clássica cadeira Egg, por exemplo, desde os anos 50 fazem sucesso e representam bem o design escandinavo no resto do mundo.

De fato, na Europa ele está em todas as casas graças a Ikea, mas, por aqui, importantes arquitetos e designers de interiores assinam projetos com franca inspiração no estilo: é o caso de Marília Pelegrini e Bruno Gap.

A arquiteta Marília Pelegrini assinou o ambiente “Cozinha Essencial” na Casa Cor, utilizando madeira, superfícies brancas e muita luz natural, mesmo que simulada através de backlight. “Cozinha de conversação” é a tradução exata da palavra “cozinha” para os dinamarqueses.

“Não é um espaço apenas para cozinhar, mas um espaço de vivência, em primeiro lugar”, afirma Marília. A arquiteta conta, ainda, que sua motivação foi sua completa identificação com os preceitos do design escandinavo: mínimo, prático, conciso, claro e de formas perfeitas.

“Talvez seja meu Pinterest tendencioso, pois sou completamente apaixonado por essa vertente”, confessa o arquiteto Bruno Gap, sobre o fato de ter se inspirado no estilo escandinavo na hora de criar seu ambiente na Casa Cor SP: “Cinema em Casa”. “A simplicidade perfeita é o que mais me encanta. Nada de cores fortes, com preferência para tons acinzentados que preencham o espaço sem ofuscar os detalhes mais sóbrios”.

Para Bruno, o estilo escandinavo é tudo aquilo que ele gosta de fazer e ser: simples. Entretanto, com a sofisticação e aconchego na medida de quem habita o local, através de fotos, quadros e texturas sobrepostas em tecidos, madeiras e pedras, Bruno acredita que o ambiente é um reflexo da personalidade íntima de cada um.

O olhar do natural e focado no uso racional é encantador e me faz questionar o excesso que vivemos todos os dias e que nos cerca. Por que não simplificar tudo e manter o que é básico e necessário?” – questiona. A pergunta está lançada.

Algumas das melhores escolas de design do mundo estão na Escandinávia, como a Bergen Academy of Art and Design (Noruega), A Alto University (Finlândia) e a Konstfack University (Suécia) – todas gratuitas.

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