ENQUANTO HOUVER DESEJO

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Por Rafael Bittencourt.

A Moda, com M maiúsculo, foi indicada como morta, alguns meses atrás, por uma de suas pensadoras e entusiastas mais influentes e respeitadas – a holandesa Lidewij Edelkoort. O anúncio da morte foi feito por meio de um manifesto antifashion em tom de desabafo, que pode ser comprado por €25 no site de Li, em que acusa o mercado e o marketing como os principais culpados.

Ainda que tanta influência e relevância nessa chancela por trás do nome de Edelkoort traga um peso especial para a publicação, nunca se pensou tanto na cultura e na sociedade – já diria Vargas Llosa. O próprio Facebook, de uns tempos para cá, se transformou em uma plataforma de opiniões, que chega a dar saudades dos tempos em que jogos, testes de personalidade e fotos pseudoanalógicas eram os temas centrais das postagens.

Em meio a tantas opiniões, colunas, Mediums e long-reads, para atrair atenção é preciso uma performance que envolva gritos que anunciam o luto por uma instituição e um figurino trashed para entrevistas – como Li fez, talvez numa tentativa de resgatar os “tempos áureos da moda” (leia-se: desfiles altamente teatrais de 45 minutos, com 65 modelos que atuavam os looks que vestiam, e coleções que se aproximavam a grandes shows).

O discurso da designer não poderia ser menos chamativo e, desdenhosamente, Li analisou as diversas facetas e subinstituições da Moda, refletindo sua percepção pessimista de uma expressão cultural que, segundo ela, acabou se rendendo ao business pelo business, careta e covarde. “A moda se tornou uma paródia ridícula e patética do que era”, diz.

Zeitgeist

É fácil identificar o ponto central do ataque de Li: a moda mainstream, que se fechou em uma cadeia profit-only e se blindou com um muro de arrogância, carões e desprezo a tudo aquilo que não fosse digerível ou rentável. Essa abordagem se reflete, claro, na educação dos novos designers de moda – que sairiam da graduação mais cheios de si do que de propostas criativas e surpreendentes – e em um meio raso, que muitas vezes não consegue entender muito mais que as próprias selfies com famosos nas semanas de moda.

Mas, ao contrário do que é dito e esperado da Moda com M maiúsculo, esta nunca foi gatilho para revolução cultural e, sim, um retrato – muitas vezes provocador e com o dedo na ferida, até catalisando tal processo – do zeitgeist. Moda é uma representação dos desejos individuais que se refletem na sociedade. Logo, enquanto houver desejo, haverá moda.

Ao olhar “para dentro” e analisar essa sociedade narcísica, egóica e individualista, encontra-se um mar de pessoas urgindo por acolhimento, compreensão, pertencimento e por algo em que acreditar – daí tanta opinião formada sobre tudo na sua timeline, em caixa-alta e recheadas de hashtags de socorro e compaixão.

Mas o que as marcas devem fazer quando entendem que o consumidor é rei, mas que o rei está desesperado? Dê colo, compreensão e, principalmente, empoderamento. Mas para atender aos desejos e necessidades de uma sociedade que não se posiciona ou se reconhece como parte de uma tribo – ou, quando o faz, nega todo tipo de expressão exagerada, priorizando conforto e sossego -, não há espaço para ousadia e criatividades poliédricas (ainda).

O lado bom de toda a história é que, como a análise-crítica de Li sobre o mainstream da moda, quando se pensa na cultura do compartilhamento – que ainda só é uma realidade significativa nos coworkings de Neukölln em Berlim -, nas marcas que começam a se guiar muito mais pelo propósito que pelo lucro e no fato de que a moda masculina, há tempos, não era tão expressiva e crescente, o cenário pessimista e inicialmente desesperador que Edelkoort jogou na cara dos fashionistas mais superficiais começa a mudar um pouco de tom.

Afinal, como ela mesma diz, para toda tendência, há uma contratendência. E enquanto isso, a Moda e as modas vão se reinventando e tomando novas formas, para atender melhor o público que ainda se guia pelo próprio desejo.

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