RUPAUL’S DRAG RACE: CULTURA DRAG E POP SEM FREIOS NA TV

Por Rodrigo Azevedo para Revista F. Cultura de Moda.

rupaul

As Olimpíadas do universo drag.” A frase, repetida em tradução livre e incansavelmente durante o reality show Ru Paul’s Drag Race, pode soar pretensiosa quando atribuída apenas ao criador, produtor executivo e apresentador do programa, Ru Paul Charles. Entretanto, mostra-se uma definição acurada do respeito e das proporções do alcance da atração quando é repetida pelos participantes e jurados convidados em tom assertivo, convicto e firme.

Idealizada e produzida pela produtora norte-americana World of Wonder e exibida nos EUA pelo canal Logo (no Brasil, pelo Multishow), Ru Paul’s Drag Race virou uma gincana televisiva de referências dentro da comunidade LGBT, saudando a cultura pop e reafirmando a força artística do movimento drag. O formato – as competidoras enfrentam desafios e provas que testam habilidades diversas, como canto, dança e costura, com eliminação progressiva ao longo das semanas do jogo – bebe da fonte de outras competições da TV, mas traz o frescor de elementos particulares e únicos, como a dublagem de uma música ter o poder de decidir a próxima eliminação.

Ru Paul, ícone drag, superstar e dona/dono da festa, realmente sabe como comandar o espetáculo e tirar o melhor de suas pupilas – buscando uma combinação de carisma, originalidade, coragem e talento e inspirando o perfil multifacetado que se espera da vencedora. A drag brasileira Angel, que reforça as estatísticas de performers apresentadas à arte pela atração, resume: “Ru é a supermodel definitiva. Saiu dos club kids de Nova Iorque e hoje está onde está.” O branding e a capacidade empresarial de Ru são inegáveis e impressionam. De rosto de campanhas de cosméticos a CDs e livros, ela já fez de tudo e sabe manter-se relevante e atual.

Onda retrógrada

O contexto social contemporâneo, ainda que abrace com maior facilidade o tom subversivo da atração – permitindo que os bordões e os memes da “Corrida das Loucas” (título usado na primeira exibição por aqui, ainda pela VH1) ganhem força internacionalmente -, também aponta para uma onda retrógrada de ódio e conservadorismo, em nível internacional e nacional.

Vemos personalidades declaradamente homofóbicas ganhando espaço e, o que é pior, poder político. Nesse cenário, ver um programa estrelado por homens que ousam vestirem-se como mulheres – precisamos lembrar que o machismo e a misoginia também são fortes – é crucial para que possamos nos munir de forças, nas lutas diárias todas”, analisa a roteirista Analu Pitta, fã incorrigível de Ru Paul’s Drag Race. “Com o boom, surgiram grupos no Facebook – estou em um que conta com mais de 5000 membros – que viraram pontos de apoio e, por que não dizer, de resistência.”

Levando em conta não só a agenda política, o reality levantou questões sociais importantes, como a de identidade de gênero e do casamento homoafetivo. O interesse econômico pelos artistas e pelas casas noturnas nas quais eles se apresentam foi, certamente, alavancado. Angel explica a importância de valorizar as queens locais. “Não é fácil fazer dinheiro na noite. São horas e horas de ensaio, de treino, de maquiagem, de dança e dublagem. E, infelizmente, ainda tem muito homofóbico solto pelas ruas do país.”

A celebração da diversidade e da liberdade, no entanto, é o que mais se encontra durante as apresentações que ganharam o país de norte a sul, com performances estreladas pelas participantes da Drag Race e pela nova safra brasileira. “A impressão que fica dos shows é a de poder visitar, que seja por uma noite, uma existência mais leve, repleta de música, glitter, afeto e tolerância”, compartilha Analu. Não parece – entrando no clima – uma receita fabulosa?

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