O ABRAÇO FINAL

Por Hellen Katherine, para a Revista F. Cultura de Moda #10.

03_Garment Workers in Deathtrap_ Taslima Akhter_ Nobody knows who are they, what is the relation between them but the crude reality make them closer and may be they are trying to save each other and the last moment of their life from the death trap of Savar Rana Plaza_. Embrace in Death. Near about 438 workers died as building Collapse at Savar Rana Plaza. Most of them are women. Savar Dhaka, Bangladesh, 24th April 2013

©Taslima Akhter

Toda vez que olho essa foto, me sinto desconfortável – ela me assombra. É como se eles estivessem me dizendo: ‘Não somos um número, não somos apenas trabalho barato e vidas baratas. Somos seres humanos como você. Nossa vida é preciosa como a sua e nossos sonhos são preciosos também’. Eles são testemunhas dessa história cruel. O número de mortos agora passa os 750. Que situação desagradável nós estamos, onde seres humanos são tratados como números.”

Assim, a fotógrafa e ativista bengalesa Taslima Akhter posicionou-se, em texto publicado na Time (maio/2013), sobre a imagem batizada “Abraço Final” – registrada por sua câmera em meio aos escombros do edifício Rana Plaza, que desabou em Savar, próximo a Daca, capital de Bangladesh. O acidente do dia 24 de abril causou mais de mil mortes e é considerado a maior tragédia da indústria têxtil do país. A foto chocante do casal abraçado sob os restos do prédio foi classificada pela revista como a mais perturbadora do ocorrido.

VALORES NÃO DECLARADOS

Imagens e números que poderiam ter sido evitados. Um dia antes da tragédia, rachaduras foram constatadas na construção, classificada como de situação irregular. Apesar disso, quase três mil trabalhadores foram forçados a permanecer nas cinco unidades de confecção, sob as mesmas e diárias péssimas condições de trabalho, servindo a empresas como H&M, Gap, Benetton e Walmart.

Atualmente, só a China exporta mais têxteis que Bangladesh. O setor movimenta, aproximadamente, US$20 bilhões por ano e mantém cerca de 3,2 milhões de pessoas empregadas. Tragédias como a de Savar mostram porque o país ganha esse mercado facilmente: a mão de obra barata, que deveria ser sinal de alerta, é atrativo. São mais de 4 milhões de pessoas trabalhando dez horas por dia, seis dias por semana, por metade do salário praticado no vizinho chinês – 80%, mulheres.

Parece uma realidade distante e, de fato, a palavra “escravidão” nos remete a um contexto antigo e superado. Dados mostram que a diferença é que o sistema atual não consta nos livros de história: é invisível. Há, pelo menos, 27 milhões de escravos modernos no mundo, alojados em locais insalubres cujos aluguéis são cobrados através da fabricação das peças que estampam as vitrines de muitas marcas desejadas. É o chamado sweating system (sistema de suor) – e nós fazemos parte dele.

A escravidão é mais o resultado de um largo processo do que um problema em si, que pode ser extirpado do dia pra noite. É uma consequência de graves injustiças, reiteradas exclusões e históricas desigualdades que se verificam na realidade em que vivemos”, define Maurício Hashizume, da ONG Repórter Brasil, cujo trabalho é focado em ações relacionadas aos direitos trabalhistas. Por isso, segundo ele, é difícil culpar quem vende ou quem compra. Trata-se de um sistema que requer esforços múltiplos, do empregador ao consumidor, para ser combatido.

No caso de Bangladesh, Maurício aponta algumas particularidades que levaram a tragédia a tomar a dimensão que tomou, além, é claro, do chocante número de vítimas. A construção que abrigava os galpões foi programada para ser um shopping, revelando o tamanho da precariedade à qual os trabalhadores estavam submetidos. O fato de estarem costurando para algumas das mais famosas marcas da América do Norte e da Europa também contribuiu para que o assunto ganhasse novo foco. O continente europeu, inclusive, é destino de 60% das peças fabricadas no país.

A maioria das marcas envolvidas nesse tipo de acidente declara ignorar as condições de trabalho, moradia, alimentação e pagamento oferecidas – foi o caso da Zara, que protagonizou uma das denúncias mais famosas do Brasil. “Em geral, as empresas detêm um controle muito rigoroso da sua cadeia de produção. Em alguma medida, funcionários conhecem, sim, a forma como peças são produzidas. A própria imposição de volumes e prazos induz a esse sistema de seguidas subcontratações”, explica Maurício.

QUEM PAGA

por Taslima Akhter

©Taslima Akhter

Mas a cadeia não para por aí. O colapso do Rana Plaza reacendeu, também, discussões a respeito dos sistemas de auditoria, já que muitas grifes estavam com esquemas de inspeção em andamento. Além do número de auditores reduzido – média de 18 para monitorar cerca de 100 mil unidades de produção, as multas para cada infração são tão baixas que não estimulam movimentos por reformas. É um ciclo complexo, vicioso e doloroso – exatamente como descrito por Taslima.

Bangladesh tem 150 milhões de habitantes, que vivem administrando dificuldades com agricultura e fenômenos naturais. A indústria têxtil foi a solução encontrada para “salvar” o país, representando 80% de seu PIB e, paradoxalmente, colocando seu trabalhadores na lista de mais mal pagos do mundo. E não é preciso dizer quem paga.

Qual seria, então, o papel do consumidor? “O boicote é uma atitude legítima, mas, por si só, não é suficiente. É preciso enfatizar mudanças estruturais para enfrentar as bases que permitem esse sistema. E nem sempre esse tipo de mudança é mais fácil em países pobres”, revela Hashizume. A um custo alto, a tragédia resgatou a questão. Além da assinatura do Acordo de Segurança, que busca aprimorar a supervisão nas fábricas, a proposta para aumentar o valor do salário mínimo no país está em andamento. A média do setor têxtil, em Bangladesh, é de US$38 por mês.

Anúncios