GASTRONOMIA E AFETO

Publicado pela Revista F. Cultura de Moda #15

Por Dani Sartori

Há quem acredite que a refeição começa e termina na mesa, mas esta não parece ser uma lógica partilhada por Ana Holanda, editora-chefe da revista Vida Simples e criadora do projeto “Minha Mãe Fazia”. Para Ana, que conserva uma infância repleta de doces memórias, a comida é uma ponte que nos conduz às nossas lembranças mais preciosas. E é a partir daí, com um enfoque inspirador de recordações de sabores inesquecíveis, que a jornalista faz um delicioso convite a nos conectarmos com nossas lembranças gustativas através da página virtual “Minha Mãe Fazia”. E acrescenta: “Eu acho que toda criança precisa crescer rodeada de comida gostosa, cheirosa, verdadeira. Tem que ir à feira, em horta, em pomar. Tem que comer fruta e deixar escorrer o caldo pelo braço. Tem que reconhecer o cheiro da manga, do maracujá, da pitanga, da hortelã. Tem que perceber a mágica que é ver a mistura do ovo, da farinha e do leite se transformar em um bolo cheiroso. Tem que crescer e se lembrar disso com afeto.”

1) Qual a sua ideia de uma refeição repleta de afeto?

Primeiro, acho que a comida tem que ser de verdade, o que também é sinônimo de comida saborosa. Não imagino uma refeição repleta de afeto tendo como prato principal uma lasanha congelada. Gosto de comida saborosa, em que existe muito de quem a preparou ali. E isso não significa que precisa ser gourmet. Pode ser arroz, feijão, bife, salada. Bem básico. Quando a gente cozinha, um pouco de nós fica naquele alimento. E o prato passa a ter alma. Outro dia, vi um programa na tevê em que um jovem padeiro falava que quanto menos o pão fosse processado, melhor. Ele defendia que o pão não precisava passar por uma porção de máquinas. Quanto mais fosse sovado à mão, melhor, porque isso traria alma para o pão. Quando ele falou isso, achei tão bonito. É isso, né? A gente coloca muito de quem somos quando estamos cozinhando. Então, existe certa doação ao cozinhar. Existe alma, existe afeto.

2) Qual lembrança que lhe é mais cara das receitas que sua mãe fazia?

Eu adorava sentir o cheiro da comida sendo preparada: alho fritando, feijão sendo cozido, bolo saído do forno. Quando eu era criança, minha mãe ficava com a gente. Mas ela não tinha tempo, de verdade, para ficar com a gente. Ela era dona de casa, mãe de três filhos (sou a do meio) e precisava cuidar da casa, fazer as coisas acontecerem, preparar o almoço todo dia. O cheiro da comida no ar era a presença da minha mãe. Ela não estava ao meu lado, mas eu sabia que ela estava ali porque eu sentia o aroma da cozinha invadindo a casa.

3) Qual foi o seu maior achado nos cadernos de receitas? Por quê?

O mais bacana entre os achados nos cadernos de receitas de família – um estudo em que venho me aprofundando nos últimos tempos – é perceber o quanto esses cadernos não trazem apenas receitas. Eles são um reflexo das pessoas, das relações que elas estabeleciam e de um tempo. Existem motivos históricos e sociais para, por exemplo, as mulheres de uma determinada época colarem as receitas de papel entre as páginas (aquelas receitas que vinham nas latas de leite condensado ou de creme de leite). Outra coisa muito bacana são as surpresas que esses cadernos escondem: poemas, dedicatórias, pequenos diários. Outro dia, uma amiga me contou que, após a morte da mãe, folheando os antigos cadernos de receitas dela, descobriu vários poemas escritos à mão. Poemas lindos sobre saudade, amor. Uma descoberta de uma delicadeza só. Coisas que só um caderno de receitas nos revela.