UMA MODA PALATÁVEL

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Publicado pela Revista F. Cultura de Moda #15.

Por Rafael Bittencourt

A ideia de um estilo de vida saudável e natural deixou, há tempos, de se aproximar da ideia de privação dos prazeres da mesa. O termo “orgânico”, de cerca de cinco anos para cá, ganhou muito mais importância neste quesito que os “noventistas” “light” e “diet” que permearam o lifestyle “Molico”: um dia, o aspartame foi escolha das estrelas e, hoje, ele é um veneno (a nova gordura trans?), substituído por açúcar mascavo ou algum cristal… orgânico.

Assim como na moda, a gastronomia e os hábitos alimentares mudam, afinal, os interesses pessoais estão sempre em movimento, em direção a novas descobertas e possibilidades. Talvez o fato de o sabor ter voltado à mesa em uma posição prioritária tenha feito com que a relação com a comida voltasse a ser mais permissiva, gostosa e lúdica – vide os inúmeros “hambúrgueres orgânicos” sem agrotóxicos e sem conservantes que foram surgindo por aí.

Enquanto isso, no dia a dia entrelaçado pelas redes sociais, o Pinterest virou a maior fonte de inspiração de pratos saudáveis e fofos; o Instagram, a nova galeria fotográfica com pratos das mais diversas hashtags e dicas imperdíveis de onde comer a melhor pizza da cidade essa semana; já o YouTube tangibiliza a teoria de Warhol sobre a fama, dando um canal para cada um que queira ensinar aquelas receitinhas achadas no antigo caderno que pertencia à família.

Seguindo esta mesma lógica, vimos, nos últimos dois anos, um cardápio cada vez maior de programas de culinária de todos os tipos, com cozinheiros ganhando lugar de superstars – no Rio de Janeiro, Bela Gil é o mais novo ícone pop-florido-tropical, esbanjando simpatia solar e estilo replicado pelas cariocas mais… orgânicas. Todo este grande menu de variedades culinárias só vem provando que a cozinha é, mais do que nunca, um território democrático e de encontros diversos, permitindo que a própria arquitetura venha se adaptando para tornar o cômodo um local ainda mais confortável, aconchegante e receptivo.

Se a comida e os prazeres da mesa invadiram as diversas esferas do cotidiano, a moda também se apropriou desta influência nas mais diferentes nuances, uma vez que ela bebe de várias fontes e vice-versa. Afinal, em um mundo onde o consumidor é rei, ele é empoderado com um cardápio cada vez mais variado de alternativas, oportunidades e direitos. Por isso, entender seus desejos é o primeiro passo para iniciar uma criação. Não há mais espaço para que um estilo seja forçado a descer goela abaixo, como nos tempos em que moda e ditadura eram associadas. Os desejos individuais, reunidos em uma esfera social, é que vêm orientando o movimento da moda: as tendências.

Por isso, antes mesmo de Karl Lagerfeld desfilar em supermercados e jantares, a Prada já tinha servido bananas na coleção de Primavera-Verão 2011 e a Dolce&Gabbana estamparia as mais diversas frutas no verão seguinte. A moda masculina, claro, não ficou de fora – a começar pela Moschino, que decidiu abraçar a rebeldia kitsch contra os “organicismos” e a saudabilidade, com uma coleção toda dedicada ao fast food. Frankie Morello já optou por um caminho democrático para o Verão 2014, pedindo “Food 4 All” em cores fortes e estampas com padronagens exageradas e exóticas, replicando o que, um dia, era um moletom com giga-estampa de hambúrguer a ser vendido em algum container em Shoreditch. O olhar criativo na moda e na vida, que se volta cada vez mais para as ruas, mostra que tudo é possível, assim como na arte: de uma estampa de sushi a um cutelo de pingente, desde que este consumidor continue a ser mimado e bem nutrido de beleza e bem-estar.