O FUTURO DA COMIDA

Publicado pela Revista F. Cultura de Moda #16

O título acima poderia se desdobrar num texto alarmista e premonitório sobre mudanças climáticas e situações emergenciais, desses que temos lido cotidianamente. Quem assistiu, por exemplo, ao filme “Interstellar” (2014, Ridley Scott) sabe que a preocupação com o tema não é infundada e, se chegou às grandes telas, é, em grande parte, generalizada. A película apresenta uma versão muito plausível sobre um possível futuro, com um cenário nada amistoso para as gerações posteriores à nossa. Elas vão sofrer com a falta de comida e de água potável, sim. O planeta Terra continua existindo, mas a humanidade, depois de ter destruído seu próprio ambiente, não. Se poderemos migrar, antes da extinção, para outro planeta?
Melhor falar sobre um futuro mais próximo e colorido, deliciosamente recheado com as previsões da moda, só que para a gastronomia. Cecile Poignant, trendhunter, editora e curadora no Trend Union – do oráculo das tendências Lidewij Edelkoort -, afirmou, em recente evento sobre o assunto, em Amsterdam, que agora é a hora da vez das modas das comidas. “A moda não está mais na moda, a comida sim”, disparou para a sua audiência. Appunto, diriam os italianos, tão conhecidos por sua fascinante cozinha.
Mas atenção: não é 100% edulcorado o nosso panorama gastronômico atual. Segundo Pognant, nossa comida piorou muito nos últimos 50 anos, em termos nutricionais. Atualmente, é preciso comer 100 (isso mesmo, c-e-m) maçãs para se obter o valor nutricional de apenas uma, daquelas cultivadas na década de 1950. Outra revelação/comparação bombástica é que a sua batatinha frita favorita, made by Mc Donald’s, contém mais de 19 ingredientes, enquanto as reais, caseiras, contam com apenas três. Faça a matemática da saúde.
Lemos muito sobre tendências de moda e é interessante analisar a gastronomia também sob esse ângulo. Fica fácil entender, por exemplo, o sucesso dos food trucks, das hortas indoor, da febre gourmet e so on. Quando a gastronomia teve, assim, tantos entendedores e apaixonados por seu universo? Eu não me lembro. Confira alguns macroapontamentos:

– RAÍZES
CONFORTO/QUALIDADE/ENVOLVIMENTO/SIMPLICIDADE
Qualidade é infinitamente mais importante do que quantidade. A assinatura traduz a ideia do abraço apertado que daremos às comidas naturais, aquelas que nutrem de verdade o corpo e que não tem de, necessariamente, ser perfeitas. Aqui, a preferência é por comidas reais: nada mais démodé que refeições industrializadas.

Utilizando formas pré-industriais de produção dos alimentos, o bar, café e restaurante inglês Silos é baseado na filosofia do desperdício zero, com reaproveitamento de tudo, por exemplo, vidros das embalagens de geléias, utensílios que são feitos com plástico reciclado de sacolas ou a compostagem das sobras de comida que viram adubo para fazendas locais. Todos os pratos são feitos com produtos cultivados localmente, de acordo com a estação do ano. silobrighton.com

– SOMOS TODOS FAZENDEIROS
PUREZA/URBANIZAÇÃO/ENERGIA/ENGAJAMENTO/LOCAL
Quanto mais urbanos nos tornamos, mais buscamos alternativas para as comidas naturais. A procura pelo contato com a natureza é realizada até mesmo minimamente, através de hortinhas indoor que cultivamos dentro dos nossos apartamentos.

Desenvolvido pelo Studio Segers, “Daily Needs” é a tradução dessa ideia de que vamos todos cultivar nossas próprias comidas – pelo menos parcialmente. De forma funcional, os módulos foram pensados para que você possa criar sua própria galinha, para garantir o ovo de cada dia, cultivar seus vegetais, fazer compostagem para o adubo e, ainda, armazenar água da chuva. http://www.studiosegers.be

 – #FOODPORN
MACIEZ/FLUIDEZ/SENSUALIDADE/PROIBIDO/ESTRUTURA
Experiências multissensoriais no campo da gastronomia nos lembram de que comemos não só para nos nutrir: estamos envolvendo a gastronomia de apelos eróticos, com novas texturas, estruturas, cores. Curiosamente, os tais chefs de cozinha que tanto têm feito sucesso atualmente serão substituídos, em breve, por “food designers”.

O designer Jinhyun Jeon produziu uma série de talheres que estimulam os sentidos, buscando introduzir nesse ato tão elementar que é comer, o fenômeno da sinestesia. http://jjhyun.com

– HÍBRIDO
FUTURO/CONVENIÊNCIA/IMPRESSÃO 3D/INVENÇÃO/COMBINAÇÃO
No futuro, que acontece agora, a conveniência é sinônimo de “no time to lose”, mas da forma mais interessante e saborosa possível. A impressão 3D produzirá grande impacto na indústria da gastronomia, assim como a nanotecnologia. Além disso, vale prestar atenção sobre como a comida está cada vez mais pensada e utilizada como remédio e, combinada com outros ingredientes, produzindo novos significados.

A impressora ChefJet imprime doces com formatos incríveis, totalmente atuais, inseridos na categoria da nova estética. O resultado produzido são geometrias orgânicas e – caso você tenha imaginado comer um hamburger ou uma pizza impressos no seu formato tradicional, pode ser que, no futuro, os mesmos sabores venham em formatos inusitados, como os docinhos que essa impressora já está produzindo hoje. A 3D Systems, empresa que produz a ChefJet, promete lançar ainda nesse segundo semestre duas versões do periférico: com impressão colorida e monocromática.