VOCÊ TEM FOME DE QUÊ?

No Brasil e no mundo, movimentos ganham força para certificar a gastronomia como cultura, reconhecendo-a como uma arte vital para alimentar o físico e o espírito, promovendo oportunidades de paz, igualdade e cidadania. POR KATIA DIAS.

“Foi no aprendizado do ofício de cozinheiro que entendi que precisava entender melhor a minha relação com a panela, com o fogo, com a minha praça e com a cozinha. No meu processo evolutivo, percebi que o fundamento daquela relação começava com o ingrediente e que não dava para entender o ingrediente sem entender o seu entorno, a natureza. Sem esquecer que a natureza tem entre seus componentes um elemento que, muitas vezes, é deixado de lado: o homem. Foi quando entendi isso que a minha relação com a natureza e com as panelas começou a se aprofundar e a transcender o limite da cozinha. Com o uso da cultura do Brasil, dos sabores da minha infância e vivendo o espírito de viajante que herdei de minha família, comecei a compor o meu receituário. Realizei que a cozinha é o principal elo entre a natureza e a cultura e que criatividade sem utilidade não faz sentido (…)”.

Web

Alex Atala ©Reprodução.

Com essas palavras, Alex Atala inicia a carta aberta do Instituto ATÁ, pedra fundamental do “Eu Como Cultura”, um movimento que afirma, pelo Projeto de Lei 6562/13, a gastronomia como parte indissociável da cultura do país. Causos contados à mesa, receitas passadas entre gerações, histórias de vidas transformadas pelo poder econômico, político e social dessa arte ganham força na proposta desse chef e empreendedor. À frente do D.O.M., classificado pela revista inglesa Restaurant como o sexto melhor do planeta, Atala atende à revista F. com o dinamismo e a simplicidade que lhe são peculiares, destacando a capacidade da culinária em revelar talentos e promover a cidadania, caso de muitos que já trabalharam com ele. “Meu braço direito é um grande exemplo do que a gastronomia é capaz de fazer por uma pessoa”, diz, referindo-se a Geovane Carneiro, seu subchef há mais de uma década.

Atala não desanima com os entraves burocráticos que o Projeto de Lei vem enfrentando. “Nosso foco continua sendo a obtenção de um milhão de assinaturas, e estamos avançando nesse propósito”. Como a própria página – http://www.eucomocultura.com.br – justifica, “com a incorporação da gastronomia à Lei Rouanet, será possível proporcionar incentivos fiscais a quem apoiar projetos relacionados à gastronomia brasileira. Dessa forma, será possível que empresas e pessoas físicas doem ou patrocinem, com dedução no Imposto de Renda, pesquisas, acervos e publicações relacionadas ao tema. Além disso, esse movimento de estudos e afirmação da gastronomia como cultura permite que ingredientes e receitas sejam descobertos e preservados, como aconteceu na Europa, em que queijos e embutidos, por exemplo, conseguiram sobreviver à imposição sanitária e tornaram-se patrimônio cultural de países como Espanha, França e Itália”.

Poder de transformação

Nessa proposta que se sobrepuja à mera sobrevivência, a gastronomia alcança um status revolucionário em bandeiras como a do site Chefs4Peace (chefs4peace.weebly.com), onde a ideia é cozinhar receitas pela paz, rompendo barreiras de religião, raça, cor, gênero e da própria geografia política, unindo mulçumanos, cristãos e judeus pelo mundo afora. Iniciativa de igual peso está na Gastromotiva (www.gastromotiva.org), cujo Coordenador de Comunicação, Bruno Tavares, avalia: “Se levarmos em consideração as cidades em que já estamos, vamos perceber que ainda há muito a fazer. Desejamos que, cada vez mais, possamos contribuir não só para a formação de pessoas em vulnerabilidade social, mas entrar mais a fundo no tema da alimentação dentro de comunidades. Queremos diversificar nossa atuação, uma vez que vemos que existem muitos problemas diferentes que tangem à alimentação. Queremos também contribuir para que as políticas públicas sejam mais eficazes e que, de fato, gerem transformação”.

Gastromotiva – Aula ©Divulgação

Tavares destaca que um bom exemplo para visualizar o que podem alcançar é a participação de David Hertz, chef e fundador da Gastromotiva, na conferência anual do World Bank. “O grande desafio do Banco Mundial é acabar com a pobreza até 2030 e a comida tem grande papel nesse objetivo. Nossa participação demonstra que nossos valores e ações estão em sintonia com algo tão importante. Mas ainda somos uma organização pequena com recursos limitados, o que dificulta a ampliação de projetos”, diz. Ele prevê que 2015 será especial. “Estamos em processo final para iniciarmos as atividades em uma nova capital brasileira, chegando à meta de formar mil alunos neste ano. Além disso, começamos a trabalhar intensamente com a questão da alimentação infantil. Fizemos uma extensa pesquisa e desenvolvemos um novo projeto que irá trabalhar essa questão nos próximos anos”. E para fechar com chave de ouro, a Gastromotiva trará, em conjunto com o site Tudo Gostoso (www.tudogostoso.com.br), o Food Revolution Day, sob a organização do chef inglês Jamie Oliver, com o objetivo de forçar os 20 maiores países a criarem políticas de educação alimentar para as crianças.

Histórias de sucesso

Parceira do Instituto ATÁ, a Gastromotiva, em quase nove anos, formou mais de 1.240 alunos. Segundo Tavares, desse total, o grupo conseguiu potencializar a atuação com os Trabalhos de Ação nas Comunidades e, com isso, atingiu mais de 45 mil pessoas. “Além disso, temos uma taxa de aproximadamente 80% de empregabilidade após a formação dos nossos alunos. Para isso, contamos com o apoio de uma rede de restaurantes que não só investem financeiramente na formação desses alunos, como os empregam. Também contamos com outros parceiros que nos permitem manter a estrutura atual, mas que ainda é muito menor do que gostaríamos”, avalia.

2014_11_Formatura GASTROMOTIVA_19

Formatura Gastromotiva. ©Divulgação.

Nesse caminho, as trajetórias de sucesso são muitas. Segundo Tavares, contabilizados, seriam mais de 1.200 sonhos realizados só com os cursos de capacitação da Gastromotiva. “Todas as histórias nos emocionam, mas três são especiais. Temos a Uridéia Andrade, que teve uma infância difícil no sertão do Rio Grande do Norte, veio para São Paulo em busca de uma vida melhor e acabou vivendo em uma favela. Ouviu todos os ‘nãos’ que a vida poderia lhe impor, até que descobriu a cozinha. Foi nossa primeira aluna e a comida não só transformou a sua vida, como a de muitos outros. Hoje, Uridéia é uma grande empreendedora, dona de seu próprio buffet e contrata diversos dos nossos ex-alunos. Temos também o Diego Santos, que, após o curso, virou chef, professor da Gastromotiva e hoje está na Itália, estudando na Universidade de Ciências Gastronômicas, como bolsista. Por fim, tem a Renata Camargo, que, após o curso da Gastromotiva, se viu com uma necessidade enorme de compartilhar o que aprendeu. Hoje, ela é coordenadora do curso de São Paulo e virou uma grande referência para todos os alunos”.

Anúncios