A TRAJETÓRIA AGRIDOCE DOS BLOGS DE MODA MASCULINA

Reflexões sobre o olhar virtual dos homens para o mundo fashion

Por Rodrigo Azevedo

Publicada pela Revista F. Cultura de Moda #15

Uma tendência sazonal e passageira, assim como muitas reveladas pela indústria fashion, ou o futuro da comunicação de moda? É curioso perceber como esta questão ainda é pertinente quando falamos dos blogs, uma ferramenta que, sem dúvida, mudou o jeito de se trabalhar e de se pensar a informação.

Vale lembrar que os alardeados “quinze minutos de fama”, aposta de muitos especialistas para o fenômeno, já foram, há muito, superados, uma vez que os primeiros diários virtuais datam de meados dos anos 1990. De lá para cá, a cultura blogger cresceu e os números de visualizações, curtidas e compartilhamentos, também.

O flerte com a moda foi natural e inevitável. Afinal, esta indústria criativa se faz valer de uma constante atualização e de uma tentativa de controlar, ou, pelo menos, adaptar-se, ao Zeitgeist, ao “espírito do tempo”, ao presente, ao “aqui e agora” – mesmo que, contudo, não possa ser vista como um exemplo de convivência estritamente pacífica. Por terem sido catapultados da internet para as filas A das passarelas mais importantes do circuito, os blogueiros de moda trouxeram muita desconfiança dentro do meio especializado. O processo de assimilação enfrentou – e ainda enfrenta – reveses e tal dificuldade é extrapolada quando o intento é falar de moda masculina no Brasil.

O mercado de moda masculina sempre viveu uma escassez de investigação. É muito limitado ainda falar sobre a história da moda masculina brasileira com a audiência média”, esclarece Felipe Cireno Teobaldo, o Teo, pioneiro na comunicação de moda online para homens com seu Neonico – projeto que se tornou carro-chefe de um acervo imagético e criativo de suporte para a inspiração livre de seus leitores.

Recifense, radicado em São Paulo, ele acredita que hoje os blogueiros cumpram o papel de uma ponte entre o produto/opinião e o consumidor, enquanto os jornalistas viveriam entre a informação/investigação e o consumidor. “Como todo ciclo de inovação, o novo comunicador automaticamente foi eleito como assassino do antigo comunicador, mas o desenvolvimento do mercado os integrou de maneira madura. Cabe a cada um deles um lado da informação”, ressalta.

Wesley Guedes, responsável pelo blog Bandalho, entende que a resistência inicial com a cultura blogger é compreensível. “Os blogueiros entraram em um nicho antes dominado por jornalistas formadores de opinião inseridos dentro do que a gente poderia chamar de imprensa formal. Com o crescimento da internet e o fácil acesso a ela, é natural que a troca de informações dentro desse espaço virtual se faça de uma maneira mais informal e livre”, explica.

Wesley Guedes ©Divulgação

Mineiro de Juiz de Fora, Wesley decidiu criar um espaço na internet para falar de assuntos do seu interesse, como moda, lifestyle, gastronomia e decoração, fazendo um recorte de sua experiência e de seu repertório. Capitão da Marinha Mercante Brasileira, nada mais orgânico que seu blog tivesse o mesmo nome do livro de registros das operações de uma embarcação.

Assim como ele, Rodrigo Perek, de Curitiba, resolveu investir em um blog homônimo – anteriormente conhecido como “Garoto de Grife” – por hobby, procurando falar de beleza e moda de uma maneira descomplicada e acessível. Para o paranaense, seu trabalho não tem um expediente jornalístico, ainda que ele lide com comunicação e compreenda os blogueiros como formadores de opinião. “Falo no meu blog sobre moda masculina usando informações do que acho pertinente, do que leio e tenho contato, não faço um trabalho de jornalista”, completa.

Rodrigo Perek©Divulgaão.

Para além dos looks do dia, coberturas de eventos e dicas de produtos e serviços, o audiovisual ganha destaque na convergência online de conteúdo autoral. “As pessoas estão cada vez mais objetivas, então o formato vídeo é uma maneira de interagir de uma forma legal com seus leitores e seguidores”, afirma o curitibano. Wesley concorda que as possibilidades devem ser experimentadas, mas que a palavra (bem) escrita tem fôlego e não deve ser deixada de lado.

É notório, no entanto, que, embora existam ressalvas de uma mídia especializada, a cultura blogger avança em termos de poder de mobilização e se firma como um termômetro imbatível do público consumidor de indústrias e manifestações criativas. Segundo Teo, ainda que seja necessário superar o despreparo de muitos blogueiros, muito pode ser feito para se inovar e se democratizar, de fato, o mercado de moda masculina no país.

Não acredito que a informação de moda masculina representa um nicho, mas sim um ecossistema complexo. Existem poucos projetos que se dispõem a falar com o homem conservador nacional – também existem poucos projetos para o novo mercado classe C em explosão”, ele lembra. “É preciso tratar com muito respeito o leitor, sempre”, resume.

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