O FUTURO DA MODA

O que pensam os universitários do mundo da costura sobre a carreira e inserção no mercado. Por Rafael Rodrigues

De segunda a sexta, Jéssica Soares sai da sua casa, localizada no bairro Milho Branco, zona norte, e atravessa a cidade para chegar à faculdade, no Estrela Sul. Tomando quatro conduções diárias, as primeiras no horário de pico, ela alimenta o sonho de se formar em Design de Moda. “Desde muito novinha, já era minha primeira opção de carreira a ser seguida. Comecei na brincadeira, com alguns desenhos, criando roupas de boneca. Fora o fato de que venho de uma família que tem grande ligação com a área. Minhas tias são modelistas, minhas avós sempre gostaram de costurar e eu sempre estive por perto delas aprendendo uma coisa ou outra”, explica.

A moda sempre esteve presente nas sociedades como uma necessidade e a representação da imagem que as pessoas desejam mostrar, resultando num investimento diário de um mercado coletivo, envolvendo criação e gestão. E Jéssica, assim como tantos outros graduandos, precisam de um mercado aquecido para mostrarem seu talento com o trabalho na moda. No primeiro semestre, o Google divulgou dados de uma pesquisa durante o Google Fashion Trends e constatou que o varejo de moda movimenta 150 bilhões de reais, especialmente em vendas online, com a maioria do sexo feminino (58%), entre 25 e 44 anos. Os itens mais procurados são roupas, seguidos de calçados, acessórios e bolsas.

Mas as estimativas, mesmo sendo positivas, ainda podem sofrer alterações negativas. Diante da crise, o consumo, principalmente das classes C e D caem gradativamente, com o consumo refreado. Isso causa a diminuição ou fechamento de unidades de grandes lojas, acarretando na demissão dos funcionários e enfraquecimento das compras. O jornal Folha de São Paulo publicou no primeiro semestre que diversas bandeiras estavam diminuindo a expansão e implantação de novas lojas, assim como pensando em estratégias para atrair o consumidor. Até eventos de moda estavam sendo repensados para evitar prejuízos.

Com a formatura já à espreita, Jéssica conta que sua maior influência é familiar, a avó materna: “Sempre estava ali rodeando enquanto ela costurava, fazia uma colcha de retalhos ou algo do tipo, e aproveitava para fazer roupas de boneca”, conta. Ela tem como sua maior referência externa a estilista Gabrielle “Coco” Chanel, pela sua história de vida e pelo grande legado que deixou para o mundo da moda. Por mais que goste do estilo vintage e retrô dos anos 50, a estudante prefere seguir características diversas para realizar suas criações. “Gosto de criar. É quando eu posso unir coisas que parecem impossíveis de serem traduzidas em um único contexto. A melhor parte da criação é transformar o impossível, em possível. Eu encontro inspiração em tudo, filmes, livros, músicas, ou até mesmo em lugares improváveis. Sou uma grande apaixonada pelo futebol e até mesmo nisso eu consigo encontrar algum tipo de inspiração. Acho que quando se é um criador, não é muito difícil encontrar algo que te inspire”, reitera.

Mas o que a estudante pensa sobre o mercado da moda no Brasil?  “A moda vem crescendo, e perdendo aquele preconceito de que é só roupa, ou é só vaidade. Claro que na Europa, por exemplo, isso não existe há algum tempo. Mas no Brasil eu sinto essa mudança, vejo que a profissão vem sendo mais valorizada, e se tornou uma das áreas mais reconhecidas atualmente. É um mercado em movimento”, reitera a estudante, que prepara para lançar sua marca “Sweet Desire”.

CRISE

A moda está em um bom momento. Mesmo com toda essa crise no mundo, ela assumiu um lugar de destaque, creio que permanente. Acho que isso se deve ao fato de ela se aproveita do momento histórico em que está acontecendo”, comenta Jacqueline Oliveira, formada em Design de Moda, trabalhando como corsetier, modelo e vitrinista, além de ter formação em Letras e Técnica em Metalurgia. “É tão complexo o assunto que não dá para seguir linearmente no que envolve a moda. Mas, basicamente, ela tem sustentado a atualidade, pois se expandiu a todos os setores, da moda do vestuário à da saúde ou religião. Tudo faz parte da composição do look, as pessoas já não se vestem simplesmente, elas vivem o personagem da temporada”, explica.

Mesmo sendo positiva sobre o mercado, Jacqueline teme que o processo criativo esteja ameaçado. “Como disse antes, a moda acabou englobando todos os setores, e não sei se eu que acordei agora, ou se de fato o mundo está cada vez implacável em seu lado capitalista. Metaforicamente, vejo isso como uma enorme boca aberta sugando tudo o que há pela frente. E essa fome está matando o processo criativo, não há tempo para criar, existem cópias adaptadas, pois não se pode arriscar produzir algo que já não esteja praticamente vendido. E muita coisa se perde nesse processo incansável de abastecimento do mercado. Não só a criatividade, mas a qualidade do que se é produzido também. Por diversos fatores”, conta.

Mas, nem tudo é ruim. “Tudo isso gera uma necessidade de profissionais, fazendo surgir cursos, empregos e, principalmente, democratizando a moda. E isso leva à outra vertente. Quando se leva o consumo à exaustão, como no momento atual, surge um movimento de conscientização, da necessidade do indivíduo retomar seu discurso individual e todo esse cenário favorece que isso aconteça”, destaca.

A profissional revela que também se apoia num aspecto biográfico para executar suas produções. “Decidi seguir o caminho da moda por ter concluído que já não dava mais para fugir de quem eu realmente sou. Sempre estive em contato com moda, desde pequena, e sempre gostei. Minha maior inspiração vem sempre da minha vida. Mesmo quando não percebo no momento, depois vejo que criei como um desabafo. Posso dizer que é meio autobiográfico. O processo de criação é o que me agarra a todo momento. Me encanta a possibilidade de falar de qualquer coisa na roupa e saber que esse discurso vai ganhar diferentes vozes quando vestido. Logicamente, existem algumas referências estéticas, alguma coisinha gótica, punk,  rock tem que ter, nem que seja o discurso!”, conta.

EXPRESSÃO E IDENTIDADE

Felipe Pogianella começou a graduação em Moda para encontrar uma forma de se expressar e mostrar aquilo que pensa para as pessoas. “Sempre tive uma dificuldade de me expressar verbalmente, e gosto da expressão tanto individual quanto coletiva das pessoas”. Por isso, procura participar de todas as etapas da construção das roupas. “Do rascunho ate a finalização. Me inspiro e tenho influencias  nas artes, arquitetura, literatura, nas culturas diversas, folclore, alfaiataria e processos artesanais. Sobre suas influências, Felipe lista pessoas notáveis e diversas do mundo da moda, como Bispo do Rosário, Martin Margiela, Kurt Cobain ou David Bowie.

Felipe continua, afirmando que “tudo se torna massivo, em questão de segundos. Sabemos que quem costura uma peça não é financeiramente consumidor da marca, essa mesma que paga por seus serviços”, explica. “Tendo visão do nicho de mercado, em Minas Gerais,  por exemplo, nosso foco é a moda festa. Que ornam vestidos maravilhosos e com valores exorbitantes. Esses bordados são feitos por talentosíssimas bordadeiras, que recebem uma quantia extremamente pequena para bordar algo tão caro”.

E o futuro da moda? “A moda nunca vai se acabar e ponto, mas acho que sempre vai se reinventar. Ela está cada vez mais sustentável e acho também que daqui um tempo o importante numa peça de roupa vai ser o seu conceito e a história sobre a pessoa que está usando”.