DÈ JÁ VU CALIFORNIANO

Por Hellen Katherine

Se você estiver indo para Itamonte, em Minas Gerais, tenha certeza de conhecer Bill Morgan.

Matéria publicada pela Revista F. Cultura de Moda #8

O rock no final do século passado foi bandeira de uma geração, concretizada nas peças de couro de nomes como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Elvis Presley. Na etiqueta de muitas delas, a marca North Beach Leathers, queridinha destes e outros músicos nos anos 60 e 70, que garantiu a Bill Morgan – seu dono e criador – o apelido de “Alfaiate para as Estrelas”. As coleções da NBL ajudaram a compor muito do clima da época e, agora, prometem fazer história por aqui, em solo brasileiro.

O sucesso começou em 1967, em São Francisco, CA, onde Morgan confeccionou suas primeiras peças com o irmão, seu melhor amigo e uma namorada de verão. Em alguns anos, eram 15 lojas – uma, inclusive, em Londres – oferecendo roupas vistas em revistas, editoriais e celebridades no mundo todo. “Era a revolução dos anos 60. Surgimos como um ícone de inovação, tanto na moda – antes, apenas cowboys e ciclistas usavam couro, quanto na música, vestindo bandas e promovendo eventos”, conta Bill Morgan, em entrevista exclusiva à Duetto Fashion. A primeira casa de rock de São Francisco – a North Beach Revival – foi também criação sua e reforçou os laços estreitos da marca com a música.

Simpático, ele fala da infância em Nebraska, onde nasceu, e relembra sua vida antes da moda, quando a paixão pelo couro já se manifestava. Ao mudar para São Francisco, costumava ir, diariamente, a uma loja boêmia-beat, no bairro North Beach, para admirar vestidos e casacos de couro preto. “A moda me atrai desde sempre, pois, além das peças, gostava de estar ao redor de gente bonita. E o couro porque, como me disse Giani Versace uma vez, ‘nada é mais sensual que uma calça de couro preta’”. Na rotina, passeios em reservas indígenas, pescaria e, principalmente, corrida. Foi campeão nacional e, em 64 e 65, conheceu o Brasil, para a Corrida de São Silvestre.

Em 2002, a crise econômica levou a empresa à falência. Bill Morgan passou a viver no Rio de Janeiro, trabalhando com couro, aqui e ali – segundo ele, seu principal hobbie. Em 2010, registrou os anos de ouro da NBL no livro “North Beach Leathers – Tailors to the Stars”, uma forma de manter toda a história viva e dividir experiências vividas com grandes ícones da música. “Escrevi porque queria reviver aqueles ótimos tempos, que pensávamos que não acabariam, mas acabaram”. Finalmente, reencontrou Forest Sprague, amigo americano que, com a mulher, gerenciava uma pousada na cidade de Itamonte, MG. O casal encorajou Morgan a reabrir a companhia, mas, desta vez, no Brasil.

O entusiasmo é contagiante e visível nas linhas de cada resposta. Empolgado com a coleção, ele elogia o couro brasileiro e se mostra ansioso para vestir e conhecer músicos por aqui. “Haverá peças lindas, que parecem sob medida. Quero também trazer de volta as melhores do passado: a camisa de Jimi Hendrix no Woodstock, a jaqueta colorida de Elvis, o vestido de patchwork de Janis e o biquíni de Bo Derek, na capa da Playboy.”

Ele revela ainda uma linha especial, de material incrivelmente leve e macio, e fala, com exclusividade, sobre a possibilidade de criar uniformes para as Olimpíadas 2016 – de camurça, só em cores tropicais. “O Brasil me inspira porque estar aqui é como um dèjá vu da Califórnia nos anos 60. A energia é a mesma”. Parte de sua motivação com a coleção Itamonte, segundo ele, vem de poder dividir um pouco das experiências desses anos com a juventude brasileira. “Quero ver mulheres bonitas, e homens também, usando minhas calças de couro sexy.”

Mas os planos de Bill Morgan não incluem só moda. Aos 74 anos, ele desenvolve com o amigo um projeto ambiental – pela limpeza de rios em prol da vida de trutas, um projeto esportivo, por maior estrutura para treinamento, e um projeto em prol de animais de rua – uma espécie de retorno já que, mesmo usando couro subproduto da indústria de alimentos, ele acredita que a causa dos animais está presente em seu negócio.

Paralelo à confecção, Morgan e Sprague abriram, há alguns meses, o Crazy Horse Saloon, no centro da cidade mineira, onde vivem hoje – uma casa de música com boutique e café, onde artistas locais se apresentam em pequenos shows acústicos. Enquanto a coleção surge, ele busca parcerias com grandes lojas e eventos. “Estou aberto a contatos com quem já tenha estrutura ou queira entrar no mercado, goste da minha história e meu trabalho e queira unir forças para crescer e aproveitar a eletricidade que só o mundo da moda pode oferecer. É isso que me mantém no meio, é contagiante!”