ESTILO ALÉM DA IDADE

Por Dani Sartori

Matéria publicada pela Revista F. Cultura de Moda #14

©Advanced Style Dogwoof Documentary Films.

Parece curioso refletir que a juventude, enquanto fenômeno social, tenha sido algo demarcado há pouco. E isso não significa dizer que a vida começava aos 40, mas que a sociedade ocidental até então não havia vivenciado uma valorização excessiva dos jovens como a que assistimos no século XX, tendo seu ápice com a juventude celebrando a si mesma nas décadas de 1960 e 1970.

E como uma coisa leva à outra, parece pertinente pensar que a ascensão desta geração tenha causado um impacto imediato sobre o guarda-roupa. Segundo Charlotte Seeling, no livro “Moda – o século dos estilistas”, isso pode ser explicado, em parte, pela perspectiva de mudança na demarcação de fronteiras entre uma moda jovem e outra mais senhoril. “A elegância era a última aspiração das jovens, pois era exatamente o que as mães lhes tinham ensinado, nos anos 50. Além disso, davam-lhes uma aparência muito mais velha. Agora, eram elas que ditavam a moda e eram as mães que seguiam as filhas até os limites da decência”.

A moda – tal como a vida – experimentou os chamados anos rebeldes e isso possibilitou que cada pessoa escolhesse aquilo que lhe agradasse. Não era para todo mundo, mas o fato foi que ser jovem passou a ser um status, e a esta juventude algumas “ousadias” foram permitidas, principalmente nas roupas. E é exatamente aí que os códigos de vestimenta passaram a ser menos arbitrários, mas não totalmente livres de segmentações por idade. Vestir-se, ou portar-se de acordo com a sua faixa etária, ainda era esperado, ou seja, alguns regulamentos tornaram-se mais flexíveis, embora continuassem a funcionar como regras em sua essência.

Muita coisa aconteceu neste meio tempo. O mundo se tornou globalizado e difundiu-se a informação. A moda ganhou cada vez mais status de autoexpressão. Mas não só isso. Junto com a virada do milênio, houve uma melhora significativa na qualidade de vida, responsável por desencadear um novo modo de pensar sobre como viver a melhor idade (qual delas?) e como encarar as chamadas regras de estilo “aceitáveis”.
Se o culto à juventude permaneceu vivo por muito tempo nas gerações seguintes, não seria estranho supormos que esta juventude envelheceu, ou que tenha deixado seu legado sobre desconstruir as regras do jogo. A moda é viva, mutante e isso vale sob todas as óticas.

E é sob este novo panorama antropológico, formado por um exército de senhoras fashionistas, que convocamos o leitor a despir o olhar de qualquer pré-conceito. Longe do intuito de elaborar cartilhas sobre o que é adequado vestir aos 60 ou 70 anos, trata-se de apontar a essência de uma moda contemporânea, que pode tranquilamente habitar corpos de 80 anos ou mais.

Tempo de celebrar a experiência

Alheias a muitos paradigmas, algumas senhorinhas têm mostrado que a vida é muito curta para se privar dos encantos e desejos de moda. E um dos responsáveis por dar visibilidade a este movimento legítimo é o americano Ari Seth Cohen, idealizador do blog Advanced Style, que tem como grande mérito colocar luz sobre diversas senhoras elegantes acima dos 60, que se expressam com suas roupas, ao mesmo tempo em que abraçam sua idade e individualidade.

O assunto é tão rico que, não por acaso, a temática está longe de se esgotar por suas infindáveis questões filosóficas que vão muito além de qualquer peça de roupa. O projeto Advanced Style já virou documentário, livro e até caderno de ilustrações. As personagens retratadas no vídeo são essencialmente moradoras de Nova Iorque, como a artista polonesa radicada nos Estados Unidos, Ilona Royce Smithkin, de 94 anos, que ainda hoje continua a ter seu trabalho exposto em galerias e já retratou personalidades como o dramaturgo Tennessee Williams. Com seus cabelos cor de fogo, atualmente ela faz uma apresentação performática intitulada “Eyelash Cabaret”. O nome do espetáculo refere-se ao fato de Ilona usar longos cílios postiços criados a partir de seu próprio cabelo.

Outra figura notável retratada por Ari Seth Cohen é a empresária, designer de interiores e ícone da moda, Iris Apfel, cuja imagem é tão marcante que, certamente, ela habita seu inconsciente de senhorinhas fantásticas com quem você desejaria tomar um café para saber um pouco mais sobre sua vida. Apfel foi, inclusive, tema da exposição “Rara Avis: Selections from the Iris Barrel Apfel Collection”, no Metropolitan Museum, e de um livro onde apresentou peças de seu guarda-roupa, “Rare Bird of Fashion: The Irreverent Iris Apfel”. Além disso, no ano de 2011, fechou parceria com a M.A.C para lançar uma coleção de maquiagem. Aos 93 anos, esta americana segue com suas atividades e mente criativa.

Nem só de personalidades, em teoria, anônimas se faz esta nova bossa das idades. Na publicidade, os criadores também captaram a importância de uma nova abordagem sobre a idade e não foram poucas as grifes que adentraram este universo. Aos 70 anos, Catherine Deneuve estrelou uma campanha da Louis Vuitton, assim como Michael Kors escalou como garota-propaganda para sua linha de beauté a atriz Jessica Lange, 65. Recentemente, a L’Oréal Paris anunciou Helen Mirren, 69, como a nova embaixadora da marca. Ao aceitar o prêmio de ícone na cerimônia Glamour Women of the Year, de 2014, a atriz declarou: “Seus 40 anos são bons. Seus 50 são ótimos. Seus 60 são fabulosos. E seus 70 são bons pra #!@*#!. Eu não estou exatamente lá ainda, mas quase.”

Em plena produtividade à frente da Prada e da Miu Miu, a estilista Miuccia Prada, 65 anos, disse certa vez: “As mulheres sempre tentam se domar à medida que ficam mais velhas, mas as mais bonitas são sempre as mais selvagens.” Para aquelas que, de alguma forma, desejam se livrar de normas que por ventura habitam seu armário, é tempo de se inspirar! Será que, finalmente, celebramos a experiência?

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Costanza Pascolato_Crédito_Consueloblog

©Consuelo Blog

Aos 75 anos, a empresária e consultora de moda Costanza Pascolato mostra que não existe contraindicação para inquietude de experimentar a vida e a moda.

Dani Sartori – Já li declarações suas em entrevistas de que o cuidado com que se veste está ligado a um respeito com as pessoas. Para a senhora, o apuro em se vestir tem mais a ver com uma forma de se apresentar ao mundo ou, por outro lado, seria uma expressão pessoal de como você pensa a moda?

Costanza Pascolato – A ideia da roupa e do comportamento como demonstração de respeito e cortesia é quase um legado familiar, já que nasci, cresci e sempre frequentei ambientes nos quais aprendi a entender, a gostar e a apurar cada vez mais esse aprendizado. Ou seja, respeitar o espaço do outro para ser uma pessoa educada, inclusive na maneira de me vestir. Por isso, acredito que além de revelar o jeito como nos apresentamos ao mundo, a roupa é, sim, uma extensão exata do que você é, a mais autêntica expressão pessoal que cada um pode ter. Como a moda é o meu trabalho, observo que as escolhas que faço mostram, além de tudo isso e do que penso sobre tendências e estilo, algum bom humor para me divertir com uma nova “aventurazinha” (calculada!) a cada dia. 

D.S. Segundo Ari Seth Cohen, do blog Advanced Style, o estilo pessoal avança e apura com a idade. Avaliando a sua trajetória pessoal, a senhora acha que “decantou” seu estilo ou, por outro lado, se vê tolhida em um repertório que já não te permite usar certos tipos de roupa?

C.P. A idade faz você entender que a roupa não tem mais a função de exibir ou marcar o corpo e, sim, emoldurá-lo da melhor maneira possível para valorizar o que restou. Por mais que a gente se esforce e tenha consciência corporal, a cintura, a postura, a coluna já não são mais as mesmas. Por prazer e por ser uma profissional da moda, no fundo acho que sempre “decantei”, como você diz, o meu próprio estilo, inclusive para não me entediar com o que é banal, vulgar ou muito superficial.

D.S. Aliás, vale perguntar: existem peças proibidas para determinada faixa etária ou é possível desconstruir todo e qualquer rótulo ligado à idade?

C.P. Sempre digo que na moda é proibido proibir. Vejo mulheres da minha idade felizes da vida usando minissaias, saltos altíssimos ou jeans justérrimos, desconstruindo, à maneira delas, o que antes parecia impossível. Como tenho uma agenda bem dinâmica, prefiro sempre roupas e acessórios ao mesmo tempo confortáveis e capazes de me dar uma “dignidade” um pouco mais discreta. Apesar de as minhas pernas estarem surpreendentemente bem para os 75 anos que tenho, por exemplo, acho que não é o caso de eu usar minissaia e correr o risco de dar um susto em quem está me vendo de costas, na hora que a pessoa me vir de frente… Mas esse é só um ponto de vista. Literalmente. Mesmo contra proibições de toda ordem, acredito que o bom senso precisa ser cultivado em todas as idades.

D.S. Alguma das personagens retratadas pelo blog Advanced Style te inspira? Por quê?

C.P. Eu adoro a Iris Apfel, que está ótima aos 94 anos. Sinto-me uma criança perto dela. Aos 81 anos, Carmen Dell´Orefice também é muito elegante. Elas parecem estar sempre se divertindo, o que é fundamental para ter estilo. Já tive a sorte e o privilégio de encontrar Ari Seth Cohen, que idealizou o blog – hoje um sucesso global -, e ser fotografada por ele, na porta do hotel em Nova Iorque. Aliás, ele me convidou para estar no documentário que está produzindo atualmente, mas as agendas não bateram. Tenho fascínio por gente e por imagens, não importam as tribos, as idades, os círculos sociais, as diferenças culturais. Essa riqueza, variedade e diversidade são inspiradores para a moda e eu adoro. Tenho paixão por isso.

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