MENSWEAR • DAS ANTIGAS

Por Rafael Bittencourt
Artigo publicado pela Revista F. Cultura de Moda EDIT#14
Fotos João Pimenta – Ag. Fotosite ©Zé Takahashi
Demais fotos – ©Trendstop

Entre os maiores clichês da contemporaneidade estão a própria superficialidade e efemeridade, que acabam por se materializar em selfies e, em se tratando de moda – e toda a mudança sazonal que o próprio termo carrega -, vivemos nos últimos anos uma constante repetição ou, no mínimo, reiteradas fontes de inspiração nas décadas anteriores.

Diversos criadores de moda, inclusive, apontaram dedos arrogantes e críticos do setor reclamavam desdenhosamente da falta de surpresa nos desfiles, catálogos e araras das lojas. Nas coleções das últimas estações, ficou bem claro para o público que os anos 1990 são os novos anos 1980, mas até agora repetir a década passada parece, na verdade, assinar o atestado de falta de vontade de criar moda. O próprio normcore é uma grande ilustração assumida de que é mais original apelar para o básico e confortável do que se entregar à massificação de individualidades e combos de “autoexpressão”, no fast fashion mais próximo de você.

Ao mesmo tempo em que o estilo masculino também foi influenciado pela casualidade e conforto dos 90, a alfaiataria – que, no final da última década, reapareceu nos grupos de jovens modernos dos guetos artísticos do eixo NY-Londres-Berlim–Paris-Tóquio, com ares tão casuais quanto a própria calça jeans, quando já não compunha o look – continua presente neste nicho, sem olhares de inadequação de outrora.

Se os termos vintage, retrô e, por que não, brechó são default no vocabulário de qualquer pessoa interessada em moda ou design, há bem pouco tempo, quando o consumo descontrolado ainda era sinônimo de status, pareceria incabível canalizá-lo para as lojas de segunda-mão, ou desejar a boina do avô. Agora, brechós já fazem parte do circuito diário de homens e mulheres, mas saindo de uma condição de “só hype”, servindo como fonte valiosa para a construção de um estilo pessoal e escolhido a dedo – quase como uma curadoria -, tão duradouro e plural quanto a própria alfaiataria.

Em uma palestra de divulgação de seu novo livro “O Futuro Chegou”, no Instituto Europeo di Design no Rio de Janeiro, Domenico de Masi afirmou perceber uma sociedade desorientada, que, além de ser resultado de um mundo cada vez mais acelerado, se encontra numa encruzilhada e, portanto, deve decidir um caminho a seguir. Para o sociólogo, essa desorientação existe, pois a sociedade pós-industrial é a primeira a apresentar um modelo múltiplo de referências, principalmente quando comparada com as sociedades passadas, embasadas em valores melhores definidos – e, para alguns, limitados.
As múltiplas tentativas de reproduzir as memórias – mesmo que à la “Meia-Noite em Paris” – de zeitgeists anteriores por meio da moda não passaram de uma superficial diversão de velhas crianças, que botaram a toda prova, até onde vai a tal da elegância.
Entres as idas e vindas dos modismos, a alfaiataria atravessou séculos e resistiu, até mesmo, a movimentos contraculturais que, através da própria moda, tentaram negá-la. Seu formato, assim como seu uso, mudou, claro. Grande prova é que, nos dias atuais, a alfaiataria, há pouco considerada inadequada para os mais novos que quarenta anos, indireta ou diretamente, já faz parte do dia a dia.
Claro que toques e reinvenções são mais que bem-vindos e o jovem faz o que sabe de melhor: provocar e criar. Em entrevista ao Estadão, em meados de novembro, o vice-presidente da WGSN, Isham Sardouk, contou que “a tendência nas roupas de alfaiataria continua a homenagear a indumentária de etiqueta, mas com certa diversão e uma aparência mais ousada”.
Uns se guiam pelos modismos narcísicos digitais, outros pelo vanguardismo da moda. Contudo, o mais interessante é notar que a busca pela substancialidade sempre se sobrepõe a qualquer efemeridade – assim como a alfaiataria dos tempos de nossas avós.

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