O UNIVERSO AO ALCANCE DE TODOS

Estudos e pensamento de Carl Sagan renascem com remake da série Cosmos.
Por João Paulo Oliveira

Publicado na Revista F. Cultura de Moda #13

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“O futuro a Deus pertence.” Este, sem dúvida, é um dos ditados mais conhecidos e antigos de nossa sociedade. Mas qual “Deus” é esse, dono do futuro? Carl Sagan (1934-1996), cientista americano e um dos maiores propagadores do conhecimento do cosmos, acreditava que o divino não seria uma entidade antropomórfica, com a aparência similar a de um ancião humano.

Sagan cria na razão, como força essencial para que o homem pudesse se perceber, ir ao encontro das suas dúvidas, criar condições melhores de vida e ampliar suas possibilidades. Questionando tudo e sempre.
Segundo Chadas Ustuntas, músico e aficionado de Carl Sagan, o astrofísico via a linguagem do próprio universo como uma divindade. “A matemática, a geometria, a astronomia são divinas para um cientista. São leis do universo que o moldam e, também, ao nosso mundo. Consequentemente, nossa vida”, resume Chadas.

Em entrevista à revista eletrônica DomTotal, da Escola Superior Dom Helder Câmara – entidade com princípios jesuítas -, o brasileiro Marcelo Gleiser, físico e professor da Universidade de Dartmouth, em Hannover, EUA, pondera que Sagan tinha uma visão ainda mais radical que a sua, pois “ele acreditava que a ciência era a resposta para tudo”. Segundo Gleiser, ela também possui um lado espiritual próprio. Entretanto, ambos estudiosos têm visão similar quando se trata da crença ou não crença em Deus: não se ater à necessidade de uma resposta.

Para Sagan, crer ou não crer em Deus seria uma tarefa muito difícil para uma mente racional. O processo pesaria no aprendizado e, obviamente, isso influenciaria na produção de significados, o que, para ele, seria o mais importante: entender racionalmente os fenômenos, sem medo de desafiar o desconhecido e crente na possibilidade de erradicar dificuldades e encontrar facilitações para o convívio.

Em seu pensamento, as leis naturais, como a gravidade ou a entropia, atestam sobre a vida e o seu futuro. Portanto, formariam a carta astral da natureza. Assim, o questionamento e a observação dos fenômenos seriam o parâmetro para se conseguir entender a qual Deus o destino do indivíduo e o da Terra pertenceriam. Por essas descobertas e experiências, o homem pôde adaptar seus sentidos à necessidade de ir a fundo no entendimento do mundo, do universo e do funcionamento das coisas.

Gleiser aponta o telescópio e o microscópio como exemplos dessa potência humana em criar próteses, que aproximaria o homem de uma condição divina. Esses dois instrumentos mudaram a vida no planeta. Com o telescópio, “percebemos que o universo é muito mais rico, dinâmico e variado do que o céu estrelado que vemos todos os dias”.

No caso do microscópio, acontece o oposto. Ao invés do mundo do “muito grande”, temos o mundo do “muito pequeno”. Ali, se viu que “em uma gota d’água existe todo um universo de vida, bactérias e animais estranhíssimos, que são completamente invisíveis a olho nu”.

As pesquisas de Carl Sagan conseguiram trazer muitas novidades sobre os astros, como o fato de a lua Titã, de Saturno, ter, em suas características, compostos orgânicos – algo impensado até então. Além disso, foi um precursor do estudo do efeito estufa em Vênus, pesquisa esta que avançou o estudo do efeito, também, em nosso planeta.

O maravilhoso da biografia de Sagan foi que esse conhecimento não ficou restrito aos laboratórios das universidades em que trabalhou. Pelo contrário, ele foi um dos maiores responsáveis pela propagação do pensamento científico como forma de se atualizar o sujeito em meio às pregações e às pequenas crenças, não só religiosas, mas também científicas. Assim como Ustuntas, vários cientistas contemporâneos e pessoas com outras profissões se interessaram pela ciência por meio do trabalho de divulgação de Sagan.

“Estudos de Carl Sagan deram luz e inspiração para muitos interessados no universo e ajudaram a moldar a nova geração de cientistas que buscam conhecimento por todo canto do universo, principalmente com ‘Cosmos’, a famosa série de televisão”, lembra Chadas.

UMA VIAGEM PESSOAL

No final dos anos 1970, Sagan coproduziu com sua esposa Ann Druyan e apresentou a série “Cosmos – uma viagem pessoal”. O programa de TV trouxe ao público em geral questões que, muitas vezes, estavam restritas apenas aos estudiosos e aos seus nichos de atuação nas ciências.

Um raro conhecimento científico, que atualizou o saber de cerca de 500 milhões de pessoas ao redor do mundo, em 13 capítulos, totalizando quase 800 minutos de gravações. Em 2014, a série voltou ao ar em uma continuação, também produzida pela viúva de Sagan e apresentada pelo físico Neil deGrasse Tyson.

Segundo Marcelo Gleiser, a série original apresentada por Carl Sagan foi um marco na história da televisão – o documentário de maior audiência de todos os tempos. “Esta nova versão, com certeza, terá uma enorme repercussão. Ciência dessa forma inspira gerações de futuros cientistas”, afirma.

Para Gleiser, Tyson, “é diferente do Sagan, não tem, talvez, a mesma profundidade de reflexão. Por outro lado, tem uma fantástica presença e ótimo senso de humor. Sem dúvida, uma ótima combinação para essa nova versão do show”.

Entender como o universo funciona e compará-lo ao rendimento de nossos sistemas biológico e comportamental não nos incute apenas um (im)possível posicionamento sobre nossa origem ou destino. Reconhecer as regras naturais de nosso meio nos dá, também, a noção do “aqui-agora”, do tempo real e das coisas que nos circundam.

Crer na ciência não significa abster-se de religiosidade. As descobertas que melhoram a saúde das pessoas, aquelas que ajudam na diminuição de distâncias e no entendimento do que é semelhante e diverso, também inspiram nossa vida e busca espiritual. Afinal, tanto a ciência, quanto a religião creem em haver respostas adequadas para cada momento da vida, mesmo que, para muitas dessas, não se tenha a exatidão. Questionar e querer entender o “como” e o “porquê” trazem ao homem um mínimo daquilo que seria a imagem e a semelhança da natureza: a consciência.

E tê-la não é um benefício apenas para entender o movimento dos corpos celestiais, ou para saber como nossa espécie se comporta em adversidades. É sim, um bônus para conseguir, inclusive, ter a noção do seu próprio lugar como habitante planetário – ou seja, saber sobre nossas possibilidades, deveres e, também, possíveis consequências de nossas ações.

Assim, raciocinar sobre a vida, entender como a natureza se programa e aplicar ao cotidiano é, também, ter consciência política, sapiência para agir e se posicionar diante do mundo e de suas vicissitudes. É poder saber avaliar as relações que ocorrem em qualquer que seja o espaço, em qualquer que seja o tempo; seja qual for a sua formação e para atingir seja qual for sua finalidade.

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