ENTREVISTA • REGINA GUERREIRO

Publicada pela Revista F. Cultura de Moda #14

Por Hellen KatherineWEB1

Ph ©Felipe Abe

“Eu quero que vocês faísquem comigo!”. Foi assim, com brilho nos olhos, entre uma gargalhada e outra, que Regina Guerreiro finalizou seu discurso, antes da apresentação do primeiro episódio de ENJOY! para os convidados presentes na flagship da Cavalera, em São Paulo. O evento aconteceu em agosto e, além de reunir gente bacana da moda, marcou o retorno de Regina aos flashes e olhares atentos do mundo fashion. O lançamento da websérie de uma das editoras de moda mais importantes do país não poderia mesmo resultar em outra coisa: todos “faiscaram”.

Regina dispensa grandes apresentações. Seu currículo reúne não só as principais publicações do país, como uma bagagem de incríveis imagens de moda criadas por ela – muitas revolucionárias para os períodos que atravessou, décadas de 60, 70 e 80 – e uma trajetória repleta de histórias que traduzem a própria história da moda no Brasil. Inclusive, foi justamente a partir dessa riqueza de conteúdo que surgiu a ideia da websérie em parceria com a marca – projeto que traz Regina de volta à cena, após um longo hiato de quatro anos, completando nada menos que cinco décadas de carreira neste ano.

Em ENJOY!, por meio de episódios de cinco minutos, ela convida o público a entrar em sua casa para ouvir histórias sobre assuntos variados que têm em comum, claro, a moda – à qual, segundo a própria, sempre pertenceu. Dessa vez, o desafio era levar todo o seu conteúdo – que não é pouco – para o meio digital, e na velocidade que este pede. Todos os textos, claro, são escritos por ela. “Minha cabeça é uma panela de pressão”, ela diz. Sim, Regina é, de fato, uma explosão, das boas. A experiência e a irreverência bem-humorada, presentes em cada opinião, contagiam e revelam uma jornalista de moda completa, impactante, afiada e, mesmo diante de tantos adjetivos, difícil de definir em palavras. Como ela mesma confessa, é muito difícil ser Regina Guerreiro. Nessa entrevista exclusiva, a gente descobre o porquê.

PREFIRO UM ACIDENTE-FASHION MORTAL, DO QUE CAIR NUMA MESMICE UNIVERSAL – Regina Guerreiro

Hellen Katherine – São tantos anos de moda que não consigo imaginar quantas coisas seus olhos viram, quantas pessoas, quantas mudanças. Tudo parece ter sido muito intenso. Quando você pensa na sua trajetória, o que te passa pela cabeça? O que te dá mais saudade?

Regina Guerreiro – Ai, ai, ai, saudade de tudo! Mas, principalmente, de mim mesma. Modéstia à parte, eu era imbatível! A palavra impossível nunca esteve no meu vocabulário e eu ia que ia, encarando todas. Não sou mais a Regina que eu fui. Fiquei mais doce, mais condescendente, menos tempestuosa, sabe como?

HK – Você é reconhecida por seus textos brilhantes, críticas ousadas e por criar imagens de moda icônicas. Enxerga esse “combo” no jornalismo de moda atual?

RG – Não mais. Sem generalizar, acho que alguns jornalistas têm mais é vocação para relações públicas… Gostam de tudo! Outro drama-now é o achismo. Todo mundo acha isso ou aquilo, aleatoriamente. Estamos vivendo numa Torre de Babel fashion. UUUI!

HK – E sobre blogs? Li uma definição sua, uma vez (FFW Mag 33): vivemos uma epidemia de falsas estrelas. Moda e ego caminham juntos?

RG – Ego-trip é sempre uma bad-trip. No mundo da moda, as estrelas pululam. O deslumbramento é uma droga muito forte e o vício corre solto. Em verdade, quanto mais uma pessoa sabe, mais consciência ela tem do tanto que ela não sabe. Infelizmente, muitos modetes não vão fundo. E se embriagam fácil com uma chuva de paetês…

HK – Você esteve em um momento mais afastada. Como foi esse tempo de calmaria, longe do dia a dia da moda, para quem sempre foi um “escândalo”?

RG – Foi dolorido. É difícil ficar quieta, sozinha, lembrando/pensando… Mas essa hora chega e é preciso encarar esse ajuste de contas do que já foi, do que está sendo e do que ainda pode ser. Minha vida sempre foi movimentada, tumultuada, e esse meu “retiro”, nossa, jogo duro! Li muito, chorei muito, lutei muito. Enfim, acabou. Estou bem, after all. Por isso, minha websérie é divertida, irônica, atrevida, “sabida”. Aprendi a rir da vida de novo.

HK – A moda hoje é cheia de referências. Quando você começou, por exemplo, sem internet, o acesso a elas era mais difícil. Falta criatividade ou estamos tão saturados de informação que é impossível fugir do chamado “inconsciente coletivo”?

RG – Tenho horror das chamadas referências. Quando eu era diretora da Vogue, eu vivia pedindo para meus assistentes olharem menos revistas para não ficarem inconscientemente contaminados por outras influências. Dou a maior força para quem tenta/inventa. Prefiro um acidente-fashion mortal, do que cair numa mesmice universal.

HK – Estamos vendo relógios inteligentes, tecidos tecnológicos e impressões em 3D prestes a invadirem o guarda-roupa. Quando você pensa no que se imaginava do “futuro” anos atrás, o que acha dessa nova estética?

RG – Eu curto. Não é exatamente a minha linguagem – sou do tempo do papel -, mas tenho até inveja das crianças que já nascem digitando. O mundo mudou e mudar é bom, contanto que não percamos nossos human feelings. Quero continuar sentindo fome, sempre. Fome de merengues, fome de notícias, fome de experiências. Aliás, só digo não para os relógios inteligentes. Não quero mesmo saber quantas horas são…

HK – A moda no Brasil está acompanhando as mudanças, sem perder a identidade?

RG – Identidade sempre faltou, aqui entre nós. Somos um país colonizado ainda e ainda preocupado demais com a opinião que os outros países venham a ter da nossa cara. Vai daí que vivemos preocupados com o que eles estão fazendo aqui ou ali, em vez de vestir nossos reais desejos, nossas reais necessidades. A mulher brasileira é um patchwork feito de referências internacionais. Chiquérrima? Sei lá!

HK – Como é a sua rotina hoje e como a moda está presente nela? E a paixão por escrever?

RG – Acho mesmo que minha paixão essencial é escrever. Mas é um oficio delicado. Poucas pessoas sabem saborear as nuances das palavras. Poucas pessoas ainda praticam a arte de conversar. O mundo está cheio de ruídos estranhos e, ao mesmo tempo, de um invencível silêncio. Às vezes, acho os dias compridos demais. E os anos, ai, ai, ai, inacreditavelmente curtos!

HK – O que ainda te faz soltar faíscas na moda? E o que não aguenta mais?

RG – O que eu não suporto mais? Ver e rever as passarelas do mundo se alimentando mais de memória do que de imaginação. Todas as formas e as proporções parecem que já foram exploradas, percorridas, mesmo quando chegam com um make-up de modernidade. Solto mesmo faíscas: de raiva! Ainda bem que ainda acontecem lances novos em termos de matéria prima, como os tecidos tecnológicos que você citou, ou os visores de realidade que o Facebook comprou por uma fortuna, mas que ainda não foram oficialmente lançados. Além de andar nas ruas, devidamente plugados com os tais visores, vamos – por exemplo – entrar numa sala e não saber mais o que é realidade ou o que não é. Emocionante, não?

HK – Em uma das entrevistas durante o lançamento de ENJOY!, ouvi você dizer que é difícil ser Regina Guerreiro. Por quê?

RG – Não é difícil ser a tal da Regina Guerreiro. É di-fi-cí-li-mo! Ela exige muito de mim. Fico exausta! Ela é obsessiva, perfeccionista, não perdoa, não se perdoa. Quer saber? Trata-se de uma mulher in-su-por-tá-vel!