ALÉM DA BELEZA QUE O OUTRO ENXERGA

Matéria publicada pela Revista F. Cultura de Moda #14

Por Alice Linhares

2B©Divulgação

É possível praticar o equilíbrio, a profundidade e sentir a essência da vida. Sou mais tolerante, aprendi a renunciar e adquiri mais sabedoria. E sem sabedoria, a vida não serve para nada.” Cristine Yufon

Nascida em Pequim, na década de 1920, Christine Yufon é o que podemos chamar de um ícone de estilo. Ela se recusa a informar ao certo sua idade, mas sua história já demonstra quão intensamente vive até os dias de hoje. Yufon estudou em uma escola norte-americana ainda em seu país e, em 1947, casou-se com o engenheiro Georges Constant Collet. Com a tomada pelos comunistas em 1949, o casal seguiu rumo a Paris. De lá, Christine realizou o sonho de emigrar para a América do Sul, continente de promessas de uma nova vida.

Foi em 1951 que Christine chegou ao Brasil e foi morar em São Paulo. Convidada pelo jovem colunista social Ricardo Amaral, começou a trabalhar como modelo, sendo manequim da antiga Casa Vogue e da Casa Canadá. Chegou a ser disputada nacionalmente por estilistas como Maria Augusta Teixeira e Denner, tamanha atenção despertava com sua beleza étnica. Lá fora, foi descoberta pelo estilista Jacques Heim, por quem abriu mão de um contrato com ninguém menos que Givenchy.

Também nessa época, fundou sua escola de etiqueta, pioneira no Brasil e dedicada a propagar ensinamentos de postura visual, filosofia e valores de vida. Desde então, tornou-se uma espécie de guardiã do segredo da elegância e da essência da beleza. Com a delicadeza de seus gestos e a suavidade de sua fala, inspirados por tradições imemoriais, ela resgata e atualiza a sabedoria secular de seu país.

Na década de 1980, descobriu uma nova forma de expressão e começou a produzir esculturas, que adornam espaços e, posteriormente, até pessoas. Foi justamente nessa época que conheceu o então jovem estilista Dudu Bertholini. Dudu nos conta que viu Christine pela primeira vez quando ainda era pequeno, em sua cidade natal, nas páginas de um jornal. Desde esse momento, atraído pela figura marcante, pensou: “Quero fazer algo com ela”.

O encontro aconteceu anos depois, quando Dudu trabalhava na publicação independente 2Fanzine. Entrevistou e fez uma sessão de fotos com Christine, com quem descobriu ter uma grande sinergia criativa. “Sem dúvida, ela é uma das pessoas mais importantes que conheci na vida. Quando uma pessoa é autêntica, como Christine sempre foi, tudo que ela fizer será tomado por essa força criativa, essa luz, essa beleza”.

Dudu foi um dos incentivadores para que Christine começasse a produzir, além de esculturas, as “bijoux”, que ele chama de “esculturas de vestir”. A beleza e a forte personalidade da artista se expressam através dos metais pesados e fortes com que trabalha, como o bronze, a madeira, o cimento, o vidro e outros materiais. Em 2009, Yufon ganhou uma homenagem no SPFW com um desfile exclusivamente de acessórios criados por ela.

Tanto nas criações artísticas, quanto nas passarelas ou com suas alunas, Christine afirma usar, intuitivamente, o princípio do equilíbrio do taoísmo. Leveza e força coexistem. Para ela, a espiritualidade está ligada à nossa essência, às nossas boas ações e ao nosso desejo de ajudar o próximo. E é justamente isso que torna um ser humano bonito. Dudu destaca exatamente este ponto da personalidade dela. “Antes, eu acreditava que a beleza estava nos objetos que ela cria. Depois fui perceber que essa beleza apenas é o reflexo da beleza e da força interior de Yufon. Se pensarmos na estética, ficamos apenas na superfície.”

Em seu livro “Toda Mulher Pode Ser Bonita”, Christine ensina truques e ressalta que a beleza é algo que o outro enxerga. Mas é preciso ter paixão e personalidade, o que é melhor do que ser simplesmente bonita. Ressalta, ainda, que é preciso, essencialmente, ter compaixão, já que a beleza começa por dentro, no exercício diário de se aprimorar para ser uma pessoa melhor.

Dudu afirma que Christine é um verdadeiro ícone de estilo, de força, de beleza. “O estilo não envelhece, ele reflete o acúmulo de nossas experiências, está em constante evolução. E é isso que vejo na figura de Yufon”. Para a artista, a vida é uma longa caminhada e é na velhice que se adquire compreensão.

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