O FEMINISMO E O FEMININO SÃO PARA SEMPRE

Por Danielle Magno

PUBLICADO PELA REVISTA F. CULTURA DE MODA#14

Quando recebi carta branca pra escrever este artigo, claro, respeitando a temática da edição, fiquei perdida. Logo eu, que sempre li sobre o assunto e pedi para escrever sobre isso, me vi tateando sobre minhas experiências e leituras dentro do feminismo, do ativismo do dia a dia. Não discursos, mas, principalmente, o fato de tentar verbalizar algo que sim, está bem próximo, mais do que queria.

Como ser mulher e envelhecer nestes dias em que tratam esse processo como doença a ser revertida? O envelhecimento é recebido e tratado da mesma forma para homens e mulheres? E aí percebi o que me travava. Não sou, ainda, uma mulher de mais de 60 anos e, de acordo com as definições vigentes, uma idosa. Mas estou prestes a entrar na meia idade ano que vem e essa palavra me pesa. Não por mim, me sinto absolutamente melhor agora. Mais confiante, mais bonita, segura, engajada. E até mesmo nos meus problemas e questionamentos, me sinto melhor para encará-los. Mas eu sei bem o que pegou, um conhecido inimigo – o olhar do outro.

Não há um único dia em que a gente se esqueça do que é ser mulher, da luta constante para realizar atividades básicas como vestir o que lhe convém sem se preocupar com o tamanho do comprimento da barra da saia, vestido, short, sem ser assediada acintosamente e ter que achar que isso é elogio. O outro, esse coletivo que aponta, olha, julga e abaixa a cabeça em sinal de negação.

Não é fácil ser mulher nesse mundo, não é fácil explicar o que é ser mulher nesse mundo, não é fácil, sequer, explicar o que é a condição de ser mulher, que vai além do gênero biológico, do conceito de identidade. O antropólogo David Le Breton, inclusive, defende o fim da definição de gênero pelo órgão sexual, apenas. Pode parecer que isso não tem nada a ver com a gente, mas tem. Se uma definição dessa cai por terra, a ideia de sexo frágil, vulnerabilidade física e emocional, cai também. Parte da opressão feminina vem dessa ideia. Le Breton, em recente seminário em Juiz de Fora, coloca ainda na nossa luta os transgêneros, como exemplo de que a definição por gênero biológico é limitadora e culturalmente imposta.

Ele cita Beauvoir na sua mais famosa definição, que abre o livro “O Segundo Sexo”: “Ninguém nasce mulher, torna-se”. Mais gente “sendo mulher” é mais gente para quebrar paradigmas, até mesmo do corpo e do que fazemos com ele: tattoos, piercings e o próprio envelhecimento, como um processo natural da vida sim, mas também como uma forma de expressão com valores, sentidos e reconhecimento de identidade construída, não imposta. Nesse sentido, mais do que citar filósofos, sobretudo, espero ter uma conversa, claro que orientada por esse tanto de gente bacana, desbravadora e corajosa que escreveu antes de mim.

Envelhecer não é coisa simples. Envelhecer e ser mulher é pior ainda. Há muitos questionamentos sobre a função social do velho, visto como “cansado”, “peso”, “já foi útil”, “ultrapassado”. Quando penso nessas mulheres e no papel social que representam, só me dão orgulho, ora são legítimas representantes diretas das lutas dos anos 60 e 70 pelo empoderamento feminino.

Se não estavam na linha de frente, essa geração viveu aquele contexto de mudanças. Destituídas do papel social imposto, de ser mulher “feminina”, mãe, dona de casa, profissional, avó, a mulher neste período de sua vida ainda é ativa em suas escolhas, porque a vida não acabou, ou freou. Luta, ainda, pelo direito de se vestir além do que esperam: xale, óculos no nariz, vestidos sóbrios e o indefectível tricô. Se até o que vestir e como usar o cabelo é regra a ser seguida para “pessoas desta idade”, imaginem a sexualidade, o desejo, a afetividade e as relações?

A mulher, em qualquer idade, pode escolher fazer tudo, lidar com as consequências dessas escolhas e pode, inclusive, assar bolo.

A psicanalista Regina Navarro fala que neste período, anos 60 e 70, a pílula anticoncepcional deu a autonomia sexual, uma liberdade nunca vista às mulheres, se não igualando, pelo menos atenuando as diferenças e ampliando o direito à sexualidade no mesmo patamar que os homens. No entanto, ela ressalta que a mudança de mentalidade não acontece para todos e ao mesmo tempo. Mas é inegável que nada será como antes.

Responsabilizo os contos de fadas e Hollywood por esta mentalidade. Os tais contos porque, desde cedo, aprendemos o quão mágico é ser jovem eternamente, feminina, com vestido esvoaçante e esperar pelo príncipe encantado, um pouco mais velho, para dar “aquela” segurança. E Hollywood porque também associa juventude, beleza e vida. Geralmente, as mulheres mais velhas são vovozinhas ou bruxas, num maniqueísmo cruel. E ai das senhoras que rompem com isso, que vivem sua sexualidade e ainda vivem como se tivessem toda uma vida pela frente. Parece que viver a velhice, sobretudo a feminina, é ter de esperar pelo fim.

Uma visualizada em blogs de moda ou revistas femininas e já vemos a longa lista do que pode ou não pode em cada idade, regras que, aliás, parecem existir apenas para mulheres. Hannah Arendt, em “A Condição Humana”, discorre sobre como o homem é um ser social e a mulher, uma agregada. Mas a condição feminina já é outra, há algum tempo. E muitas senhoras não desejam viver sob o olhar do outro esperando a velhice confortável da sabedoria de assar bolos. A mulher, em qualquer idade, pode escolher fazer tudo, lidar com as consequências dessas escolhas e pode, inclusive, assar bolo.

Nessas reflexões, é impossível não relacionar feminismo e o feminino. O feminino e o feminismo são vertentes do mesmo ativismo. O feminino é considerado, no senso comum, suave, rosa, delicado, saias, babados, voz baixa, enfim, clichês sobre o que deveria ser a mulher. O que busca o feminismo é a desconstrução desse feminino como algo determinista e unificado. Se as mulheres não são iguais, se há diferenças físicas, estéticas, culturais, sociais, como pode existir um único “feminino”?

Feminismo não é machismo às avessas, mulheres não querem controlar homens, mas ter o mesmo espaço nos direitos, decisões e escolhas de suas vidas. Como Mary Shelley disse, no distante século 18, as mulheres só querem o poder sobre si mesmas. Sem pedir permissão. É direito, não é concessão.

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Para ler o artigo direto na revista: http://bit.ly/1EIdovt

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