MODA•DE•AUTOR 0014 – HELENA GOMES DE SÁ

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“Fazer os editoriais foi uma descoberta de mim mesma” – Helena Gomes de Sá.

© Mateus Aguiar

Ela tem 34 anos, é juiz-forana, blogueira de moda. E você ainda vai ouvir falar muito dela, se é que já não a conhece. Com um perfil que se destaca na multidão da blogosfera, Helena Gomes de Sá leva a sua plataforma muito a sério, propondo conteúdos iconoclastas, no mínimo, relevantes. E no meio de tudo isso também faz seus looks do dia, por que não?

O mais interessante é que a proposta de Helena não é catequizar seguidoras com dietas funcionais ou “do’s” and “don’ts”. Ao contrário, a ideia é desconstruir tudo isso e passar uma proposta mais libertadora nessa ditadura chamada moda. Mezzo punk, mezzo romântica, batizou sua url de Garotas Rosa Choque.

Para o projeto Moda de Autor da F.Works Produtora, Helena propôs seus looks do dia com um olhar especial: o objetivo é mostrar que todas meninas podem ser sim objeto das lentes de alguém, caso queiram. Nós conversamos e você lê tudo aqui:

Como a moda apareceu na sua vida?

Quando era criança gastava pilhas de papel fazendo peças e croquis (que eu nem sabia o que eram, na época), ficava falando para as pessoas que ia ter minha própria marca quando crescesse. Também fazia e amava aula de artes, pintura… mas depois me afastei disso tudo e acabei indo estudar direito e turismo.

O perfil do seu blog é bastante iconoclasta – desde o começo você quis que ele tivesse esse propósito?

No começo o blog era só um meio de divulgar meu trabalho em maquiagem e fazer resenhas de produtos de beleza. Funcionou bem e isso trouxe muitos leitores, mas eu queria dar mais de mim, minhas opiniões, e isso começou com a minha visão da própria maquiagem, que era bem diferente das demais blogueiras do nicho. Então, chegou um momento em que falar só de maquiagem não dava mais e a moda veio, o cinema e as séries que são meu vício… agora tem muita opinião também e acaba que, na maioria das vezes, vão na contra mão das tendências em blogs e revistas de moda, em geral. Isso não era proposital a princípio, eu só queria mostrar o que eu pensava. Mas agora eu acho que é a marca do blog, ir contra dietas, padrões estabelecidos, preconceitos…

Como é a seleção de pautas para o blog? Conte um pouco sobre o que você escreve (suas preferências de assuntos) e sobre como funcionam as colaborações no Garotas Rosa Choque.

No começo eu apenas abria a caixa de texto e falava do que me desse na telha no dia, de uns 2 anos pra cá eu faço um planejamento de postagens, temas… tudo tem que ter a minha cara, a cara dos leitores também. Sigo um plano mas não sou escrava dele, se me der vontade de falar de algo que eu to curtindo no momento ou que me incomodou, uma notícia, eu falo e a postagem programada fica para outro dia. E como tudo no blog, a equipe e colaboradores tem que ter uma sintonia de pensamento, de gostos, de visão de mundo. Alguns colaboradores se oferecem pra postar e eu avalio se tem a ver, outros eu convido.

Seu blog atualmente é um business? Você vive só dele?

Sim, ele se tornou profissional, mas não posso dizer que só vivo dele, porém ele me proporcionou todas as minhas fontes de renda. Desde maquiagem, produção de conteúdo e mídias sociais de outros blogs e marcas.

Qual a sua opinião sobre publiposts?

Os “publis” são importantes para um blog profissional, tem que ter, mas como em todas as profissões, ética sempre cai bem. Só aceito falar de produtos/serviços que tenham a ver com o blog, que possam ser úteis para os leitores e que eu realmente usaria, compraria. Também é muito importante sinalizar as postagens quando são publieditoriais, a minha credibilidade com o público vem disso, ser sempre muito franca além das minha opiniões com meu trabalho também.

Sobre as fotos editoriais escolhidas para o “Moda de Autor” – Você acha que seus looks são uma forma de inspirar outras meninas que não estão formatadas de acordo com o padrão das it girls e blogueiras fitness?

As fotos, ou os looks que eu selecionei são as minhas “meninas dos olhos”, no blog. Esse trabalho não é só inspiração para o público em geral (pois 99% da população não está nos padrões que a maioria dos blogs e mídia em geral, impõem), é inspiração para mim também, fazer os editoriais foi uma descoberta de mim mesma. Mas os looks vão além disso e temos ainda um caminho muito longo, pois sinto muito “nariz torcido” para uma gorda se achando bonita, achando que pode produzir moda e looks para serem referência. Quando o Mateus (Aguiar, fotógrafo) posta uma das minhas fotos, noto que os “likes” e elogios são muito, mas muito, menores – mesmo quando ele diz que foi um dos melhores trabalhos dele.

Então, acredito que apesar de inspirar muita gente, algumas pessoas não querem se ver, não querem um espelho, querem algo que não é humano, que é inatingível, e querem passar suas vidas tentando atingir aquilo e estão sempre frustradas por não se aceitarem. Outra coisa que percebi é que se você procurar, as blogueiras nacionais que não estão no padrão não buscam uma produção de qualidade, fotos bem feitas, e não tem um cuidado na qualidade. Não sei se elas pensam que não merecem isso, ou se não tem profissionais dispostos a fazer parceria com elas, mas é muito difícil ver uma blogueira fora dos padrões buscando um trabalho de alto nível relacionado a moda. Tenho muito orgulho da equipe por sermos talvez pioneiros no Brasil.

Quais são os “jeitinhos” que a Helena não gosta?

Bom, esse acaba sendo um defeito, na medida em que me atrapalha muito, pois vivemos no país dos jeitinhos, não é? Mas acho que, para quem tem de lutar muito para ter tudo o que faz, acaba sendo frustrante ver que seu trabalho não é valorizado, pois você não é conhecido de fulano, parente de alguém. Eu comecei o blog sozinha sem conhecer ninguém em lugar nenhum, fiz as coisas acontecerem sem ajuda e com gente dizendo que não ia dar certo. Aliás, todos os dias tem alguém para me falar que não vai. Porém, tenho sido convidada para ações e trabalhos legais (principalmente em Juiz de Fora), onde só eram vistas figurinhas marcadas, conhecidos de alguém. Sou o “estranho no ninho” nesses lugares e ainda vejo caras de descontentamento com a minha presença, mas sinto que as coisas podem mudar, que o conteúdo, a atitude e o trabalho podem ser o meu cartão de visitas.

Parafraseando Regina Guerreiro, você acha que a “moda é uma droga muito forte?”

Não tenho como discordar dela! Apesar de ser uma leiga no assunto, não ter formação na área de moda, me informo muito sobre, tenho muitos amigos na área, já fiz curso de design de moda e com certeza tenho um longo caminho. Mas, mesmo assim, já percebi que a afirmação dela é verdadeira: sou apaixonada por moda, gosto de toda a ousadia, criatividade, irreverência e quebra de tabus que ela proporciona, pois muitas das nossas revoluções na sociedade vieram da moda, ou se fortaleceram com ela. E sim, essa droga já me pegou! E o que mais me chama atenção – e é o caminho que eu quero pra mim e pro blog – é a moda inclusiva e a que vai contra os padrões. Não quero uma moda restrita ao plus size, pois não quero apenas que uma roupa caiba em mim, quero história, quero beleza e toda a atitude que uma peça pode trazer para o meu guarda roupa e para vida.

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Confira a galeria de imagens dos looks da Helena, na plataforma Moda de Autor, aqui.
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