OCUPAÇÃO ZUZU

Texto e imagens por Hellen Katherine.

 Primeira parte da exposição_10

“Essa exposição, para a cultura do Brasil, é muito expressiva, mas é, especialmente, para a cultura de moda”. Com essa frase, o professor e especialista em história da moda João Braga iniciou o minicurso “Zuzu Angel – História e Moda”, que aconteceu dia 5 de abril, no Instituto Itaú Cultural, em São Paulo. Na ocasião, João contou, em tom quase emocionado, a trajetória da estilista, oferecendo ainda sua rica e inesgotável bagagem sobre história da moda, da alta-costura e da própria cultura de moda brasileira para contextualizar o que viria em seguida.

O curso era parte da programação da exposição “Ocupação Zuzu”, aberta ao público até o dia 11 de maio, gratuitamente. Com curadoria da filha mais nova da estilista, Hildegard Angel, e de Valdy Lopes Jn, é o primeiro evento do instituto que trata moda como expressão artística e cultural. Ocupando quatro andares do prédio, trata-se, de fato, de uma experiência visual e emocional. Os diferentes espaços propõem uma verdadeira viagem no tempo, desde o início da carreira de Zuzu até o momento de “ruptura”, marcado pelo desaparecimento de seu filho em tempos de Ditadura – que fez com que passasse a usar a moda com viés de denúncia. Conforme João Braga define, Zuzu foi a precursora do que conhecemos, hoje, como moda de protesto.

Logo na entrada do prédio, encontramos um espaço onde foi construída a linha do tempo da vida de Zuzu, paralela ao cenário da época. No local, livros, revistas e vídeos marcantes podem ser explorados – como o de sua última entrevista para o Jornal Hoje, no dia do acidente de que foi vítima.

Um andar acima e encontramos um rico acervo de sua trajetória fashion. O anjo, símbolo escolhido por ela para representar sua marca, é presença em estampas lúdicas, que convivem com pássaros, borboletas e flores. A brasilidade, nem tão bem vista na época, é bandeira que Zuzu levantou, por meio dos aspectos artesanais, como bordados, pedrarias e rendas, tão utilizados em suas criações. João Braga afirma que, já nessa época, Zuzu fazia uma “alta-costura” que valorizava a identidade brasileira, graças ao seu espírito de vanguarda. A riqueza de detalhes, fotos, documentos e peças da estilista é digna de horas e horas só aí.

Um andar abaixo, o ambiente escurece e nos encontramos em meados de 1971, quando seu filho, Stuart Angel, é preso e desaparece. A partir daí, é retratada a busca incansável de Zuzu. Na moda, encontramos o veículo utilizado por ela para manifestar sua dor: o preto torna-se cor permanente e, agora, anjos feridos, pássaros engaiolados e canhões de guerra estampam seus modelos. Ainda ali, inúmeros documentos encontrados registram a luta da estilista – incluindo um espaço onde os próprios visitantes podem registrar, também, as suas buscas. A experiência completa-se com a interpretação de cartas de Zuzu, enviadas a amigos e autoridades, feita por atrizes vestidas com réplicas de suas peças – que caminham pelo local fazendo a leitura em voz alta.

Por fim, o último andar da exposição é ocupado pelo Ateliê Zuzu. Destinado especialmente ao público infantil, ali é possível recriar e colorir algumas das principais estampas criadas pela mãe da moda brasileira. E foi ali que terminei meu sábado e aproveitei para conversar um pouco com João Braga sobre a ocupação e, claro, sobre moda – em bate-papo exclusivo para o Acervo.

João Braga no piso Ateliê Zuzu

 

– A moda é efêmera, mas, em exposições como esta, podemos ver que há certas criações que permanecem, independente de seu tempo – como algumas peças que vimos aqui, tão atuais. Como você avalia isso?

A moda em si traz esse caráter de efemeridade, tem a capacidade de datar o tempo. Porém, neste tempo datado, o estilo que passou a ser de uso coletivo – ou seja, tornou-se moda – tem a capacidade de permanecer a partir do momento em que ele legitima um determinado tempo. As criações de Zuzu, com certeza, não têm o ar do nosso tempo, mas pelo valor histórico e pelo purismo de sua forma, têm essa capacidade de serem, praticamente, atemporais. Por este caráter histórico, elas ganham esse valor de atemporalidade. Esteticamente falando, há coisas que podem ser atemporais por terem traços e características que foram tão além do seu próprio tempo que conseguem passar essa ideia de uma significativa permanência. Além disso, há a divinização da obra, muito associada ao universo das artes. Parece que ali não há só as mãos trabalhando e executando, mas há a presença de uma alma, algo imaterial, uma aura que eterniza, que imortaliza determinada obra. É uma característica das artes que podemos fazer uma análise associada a outros fazeres.

– Sobre moda e arte, como você vê esse comparativo entre as duas áreas cada vez mais entrelaçadas?

Sendo muito superficial, moda é moda, arte é arte. São coisas aparentemente distintas, com formas de produção aparentemente distintas, mas com muitos pontos em comum. Há, ao longo do processo histórico, fazeres vestíveis que dialogam com fazeres artísticos. Não há resposta absoluta pra isso. Mas a partir do momento em que a moda começa a ganhar um espaço museológico, espaço em galerias, é um novo olhar para isso que sempre foi considerado, pelo menos em outros tempos, como uma banalidade, como algo tão efêmero que não precisa ser preservado. As roupas são capazes de datar o tempo, de contar uma história. Há momentos desta permanência dentro do universo da moda – como há fazeres artísticos que não são tão permanentes.

 – É o caso dessa exposição?

No caso dessa exposição, há uma história de ordem muito maior do que a própria moda. É história política, social, é história da arte, que envolve uma série de outras possibilidades de interface, de entrelaçamentos, que legitima isso como um fazer sensível. E legitima a pessoa com caráter de artista, com status de artista. Por trás de tudo, há um conceito. Uma determinada mão habilidosa pode ser treinada a fazer uma pintura ou um bordado. Mas nem todo mundo tem a capacidade de pensar e conduzir uma transformação por meio do pensamento. E Zuzu foi uma pessoa que conseguiu transformar e acrescentar a ótica de denúncia, de ordem política e social, à sua moda. Aí eu acho que há um significativo diálogo entre as fazeres ditos artísticos e os fazeres da moda.

—-

Hellen Katherine é jornalista na Press Pass e na Revista F. Cultura de Moda. 

@hkateee