GIPSY HEART

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“No mundo contemporâneo, somos todos ciganos” – DUDU BERTHOLINI. (c)Reprodução.

Nos dias 19 e 20 de outubro o estilista e diretor de criação Dudu Bertholini apresenta um Workshop de Styling e Produção de Moda dentro do projeto #MEETING, da F.Works Produtora de Moda.

Nessa reta final, restam poucas vagas para a turma de domingo. E para não ficar de fora, faça sua pré-inscrição pelo site http://www.fmeeting.com.br e a turma da F.Works entrará em contato com você!

Bom, em dezembro passado, as jornalistas Raquel Gaudard e Hellen Katherine bateram um super papo com Bertholini e reproduzimos, abaixo, a conversa para quem ainda não teve a oportunidade de conferir. Saiba um pouco o que passa pela mente (ULTRA) criativa de Dudu. Algumas imagens foram acrescentadas nessa versão do blog Acervo Produção.

Por Hellen Katherine e Raquel Gaudard – ORIGINALMENTE PELA REVISTA F. CULTURA DE MODA #8

A figura elegante e exótica do libriano Dudu Bertholini, 33, parece resumir a estética desenvolvida em parceria com a amiga e modelista Rita Comparato, há dez anos, na grife Neon. Quem já viu uma peça da marca é logo capaz de produzir tal link. O espírito nômade, de alma livre, desse profissional multitarefa da moda que é Dudu, escorre pela própria identidade visual da marca, que valoriza as estampas exclusivas criadas por artistas, silhuetas marcantes e senso de estilo apurado.

Bertholini, em entrevista exclusiva, por telefone, nos revela novidades da sua vida profissional – a retomada do projeto da revista 2Fanzine é uma delas – e conta um pouco sobre sua história, referências e como estar “na estrada” o inspira a criar o seu dia a dia. Em outubro passado, na edição de reajuste do novo calendário da SPFW inverno 2013, a Neon não participou do line-up – para decepção de fãs, como nós, dos espetáculos da grife em forma de desfile. A coleção foi lançada apenas comercialmente.

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Neon verão 2014 @SPFW – Via FFW. (c) Soubhia.

Dudu acredita que a moda atual é marcada pelo mix de informações, onde o mais importante não é o que usar, mas como. E dispara, certeiro: “Ser vítima da moda é a coisa mais burra que alguém pode ser hoje em dia.”

Fica a dica.

F – Qual a sua primeira lembrança de infância, que tenha relação com a moda?
DB – Nasci no fim de 1979, então, a moda dos anos 80 é uma lembrança muito forte na minha memória. Eu me lembro da minha tia Marisa Fragoni usando maiôs tipo colã, cabelos ousados, costeletas, um estilo bem dramático e até polêmico pra época, principalmente para uma cidade do interior de SP, Limeira. Eu digo que ela era minha musa inspiradora e uma forte influência na minha infância.

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Dudu Bertholini. (c) Acervo pessoal.

F – Você sempre cita a editora de moda Diana Vreeland e o fotógrafo Helmut Newton como inspirações para o seu trabalho. O que, de cada um, você capta e tenta traduzir no seu cotidiano?
DB – Para mim, os dois foram os que melhor desenvolveram uma linguagem de imagem de moda no século XX, eles se complementam. A Diana com um trabalho cheio de fantasia, poesia e subjetividade, sem perder o aspecto comercial e a elegância. Ao meu ver, são pilares na construção da imagem de moda: você conseguir vender o produto de maneira poética, com fantasia, com sonho. E o Helmut, mais que fotógrafo, era um stylist. Ele colocou uma sensualidade contemporânea nas fotos, uma imagem de mulher forte e sensual. Eles conseguiram criar imagens atemporais e elegantes.

F – O que você tem ouvido e lido ultimamente?
DB – Tenho um gosto musical muito eclético e, por incrível que pareça, escuto mais músicas antigas. Gosto de rock, de todos os períodos, mas principalmente dos anos 60 e 70. Gosto de pop music, atuais e anos 80. Gosto também de folk music, as mais antigas. Música para mim é igual roupa, tem uma para cada ocasião. A internet é minha maior fonte literária hoje, lá, leio de tudo, acho que ela é o maior denominador da sociedade contemporânea. Estamos na era da informação, vivendo o caos pós-moderno. Essa informação pode vir de tantos lugares, que a gente precisa aprender a fazer uma curadoria. No final, somos todos curadores desse caos. Gosto de tudo que tem imagens, fotografia e design de moda, por exemplo. Das revistas de moda, a minha favorita é a Vogue Paris. Mas não leio só moda, procuro não ficar alienado.

F – Ouvimos a respeito de uma revista que você fazia e talvez pretendesse retomar, em breve, o projeto. Você pode nos contar um pouco sobre isso?
DB – É o máximo! Esse é o projeto para o qual estou mais animado! O nome da revista é 2Fanzine. É uma parceria com o diretor de arte Kléber Matheus – da Ellus, que vive em Paris. Em 2001, nos reunimos no desejo de ter um espaço próprio, independente, para lançar nosso conteúdo, nossas ideias. Trata-se de uma reunião dos universos pessoais criativos dos colaboradores, juntos há mais de 10 anos. São artistas, maquiadores, fotógrafos, diretores de arte… Gente como Rick Castro, Lau Neves, Marcelo Krasilcic – que, inclusive, assina a capa da próxima edição. Foram seis números, de 2001 a 2005, tivemos um hiato de seis anos e, agora, vamos lançar a 7ª edição. É uma revista cheia de recursos gráficos, facas, adesivos. É mesmo um item de colecionador, a edição é bem customizada. Ela é distribuída para formadores de opinião e vendida em lugares especiais. Vamos lançar em três cidades: São Paulo, Los Angeles e Paris. A previsão é que isso aconteça neste mês, outubro de 2012, e em março de 2013.

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Conteúdo 2Fanzine, publicada esse ano, conforme antecipou Dudu Bertholini, para a revista F. (c) Reprodução.

F – O seu Instagram “nos conta”, frequentemente, sobre suas viagens. Você sempre esteve na estrada? De que forma as suas viagens influenciam o seu trabalho?
DB – Costumo dizer que existe um cigano super forte dentro de mim. Uso isso até como legenda nas minhas fotos, “Gypsy Heart”, que traduz uma alma livre, mas conectada com quem você ama. Sou libriano de alma livre, gosto da ideia de liberdade. No último ano, retomei várias atividades profissionais, além da Neon: styling, curadoria na Casa Museu – um trabalho de resgate do artesanato brasileiro -, estou palestrando e lecionando. Nada me alimenta mais, me faz mais feliz que viajar. E, mais que viajar, poder ensinar, trocar e acrescentar. Me confrontei com a diversidade gigante desse país, que é um verdadeiro continente, com cultura e diversidade absurdas, que levo, não só para o meu trabalho, mas para a vida. O Instagram é a plataforma que uso para construção de imagens, para exercitar o meu olhar, como um diário de viagens mesmo.

F – Você desenvolve, com a modelo Marina Dias, um trabalho especial de marcação das modelos para desfiles e, também, para as produções fotográficas. O que é a Academia de Poses?
DB – É algo que levo pra vida, além da Neon mesmo. Todos os meus trabalhos envolvem poses. Acredito que moda é muito semiótica, o corpo fala. 70% da nossa comunicação é não-verbal. O corpo é o principal, é o suporte para a roupa. Por isso, a pose é tão importante quanto a roupa que está na modelo. Então, eu e a Marina nos aprofundamos no estudo de poses de diversas épocas, até do passado, para realizar esse projeto. Para cada desfile, criamos o que a gente chama de partitura corporal. Cada desfile pede uma atitude diferente. Então, a gente convida as meninas a entenderem as linhas do próprio corpo, pra fugir da atitude robótica.

F – Você se encontra, se realiza, mais na produção, no styling, ou na criação?
DB – Eu me realizo sempre que consigo colocar no trabalho o que sei fazer de bom, é uma combinação. Ser estilista é uma das melhores formas de aplicar meu olhar criativo. Não gosto muito de desenhar, gosto de construir uma imagem. Meu trabalho é multidisciplinar. Não acho que faço styling, acredito que seja mais direção criativa, pois trabalho com toda a composição de imagem. Todos os trabalhos partem do mesmo universo, mas a gente vai direcionando talentos. Gosto quando consigo aplicar a imagem e exercitar meus talentos nos mais diversos e plurais campos.

F – Aparentemente, na Neon, vocês “trocaram” o corte exclusivo pela estamparia exclusiva. É verdade?
DB – A estampa sempre fez parte da Neon. O que fez a marca ser o que é, de fato, é a estamparia exclusiva. Mas a estampa faz parte de um universo maior: roupas, silhuetas, estilo, exuberância, cortes… O branding é muito importante, porque a marca não é só roupa, moda não é só roupa. A identidade é muito importante. É o diferencial que estabelece a identidade para competir no mercado. Você pode competir com duas coisas: preço ou diferencial. Eu escolhi trabalhar com moda pelas várias possibilidades de comunicação que ela traz, junto com uma marca.

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Dudu Bertholini e Rita Comparato. (c) Divulgação.

F – Desfile e araras. O que está em um e que não está no outro?
DB – O desfile maximiza as ideias, os conceitos. A ideia é que quando a pessoa entre na loja, para comprar uma camiseta, que seja, ela leve junto o universo da marca. A arara atende ao propósito comercial, a passarela incendeia o imaginário. Mas o ideal é que um dê força ao outro, se complementem.

F – Quando vocês chamam um artista para assinar as estampas da Neon, existe um direcionamento, algum briefing, de acordo com a temporada?
DB – A gente costuma dizer que elas são feitas a seis mãos. Procuramos conhecer o trabalho do artista e pedir algo que seja coerente com o universo dele e com o universo da marca. Estamos abertos a ouvir o que é melhor pra ele também, é uma soma. Somos nós que colorimos as estampas, então, a gente conhece muito bem o que já foi feito e o que não foi. Buscamos unir os dois universos.

F – O que a moda pode oferecer a uma pessoa sem estilo?
DB- Estilo não é roupa. Todos têm estilo, estilo de viver. Moda é apenas um veículo de impressão pessoal. E a moda, hoje, está democrática, pra que as pessoas busquem coerência entre o que elas vestem e seu lifestyle. Não é preciso mais correr atrás da moda, ela oferece tudo, ela corre atrás de você. Por isso, ser vítima da moda é a coisa mais burra que alguém pode ser hoje em dia. Hoje, a moda te dá carta de alforria, jeitos de usá-la a partir da sua própria personalidade. A moda é apenas uma ferramenta de expressão visual.

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Dudu numa de suas recentes viagens.

F – Li um depoimento seu, em entrevista para o portal FFW, que dizia: “Pra mim, moda não é arte porque acho que ela tem uma funcionalidade, um propósito, ela tem que te vestir, tem que te cobrir do frio”. Você acha mesmo que a moda não pode nunca exacerbar a funcionalidade e servir como veículo estético apenas? Porque a gente sente uma alma artística na Neon…
DB – Acho que moda não é arte. Poderíamos ter apenas um produto, com um preço. No lugar disso, temos uma narrativa, produzimos um desfile dramático, uma narrativa imagética. Isso é da moda, mas não faz dela arte. A Rita costuma dizer: “Todo mundo que levanta da cama e põe amor no que faz, faz arte”. Eu concordo com ela. Acredito que existem artistas de moda, ou seja, pessoas que usam a moda para realizar seu trabalho. Por exemplo, Cindy Sherman, Galliano (que é estilista também, mas usa moda no seu trabalho), minha amiga Renata Abbade, acho ela uma artista de moda também. Não acho que a moda, que traduz o desejo das pessoas com toda essa narrativa que sempre há por trás, seja arte. Mas isso não a desmerece, isso faz ela ser ainda mais legal!

F – Qual a característica mais marcante e que melhor definiria a moda contemporânea, na sua opinião?
DB – Acho que mix é a palavra de ordem na moda hoje. A mistura do melhor de cada década, esta é uma característica comum de fim de século, quando a gente para pra olhar tudo que houve de melhor no passado. O mix de influências é um reflexo dos nossos tempos.

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(c) Divulgação.

F – Você acredita que a nostalgia, a valorização do vintage, do pensamento retrô – excluindo a questão do aprendizado com o passado e, ainda, a questão da sustentabilidade (que são aspectos mais do que positivos) – é uma forma de escamotear uma suposta crise de criatividade que a moda estaria enfrentando atualmente?
DB – As duas coisas. Acho que existe, sim, uma crise. Mas o novo, hoje, não vem mais da moda, o novo hoje vem mais da tecnologia. A moda remixa. Há uma ansiedade da indústria para saber o que vai ser novo na moda. O novo na moda não é o que, mas como usamos as peças. O hi-low, por exemplo, é um mix inesperado e surpreendente. Ao mesmo tempo, a sustentabilidade é a nossa proposta mais concreta de futuro. A gente sabe que não dá mais pra ficar consumindo sem pensar nas consequências. E estilo e vintage acabam sendo atitudes sustentáveis, porque quem tem estilo, consome consciente. O vintage acaba sendo a nossa principal corrente contra o fast fashion – que, ironicamente, também está em alta hoje. Portanto, há uma crise, mas há também um questionamento. Só consome vintage quem entende o próprio estilo, quem entende esse questionamento.

F – Sobre a peça da Neon, exposta numa retrospectiva apresentada por uma instituição de moda esse ano, o que você acha que isso representa, particularmente, para a sua marca? E para você?
DB – Acho super legal. É uma forma de levar a moda, e o meu trabalho, para um público mais amplo. Isso democratiza a moda. Hoje, a moda tem mais espaço em todos os tipos de mídias. É um assunto mais conhecido e eu acho isso um ganho das últimas décadas, graças ao maior interesse da população e da própria imprensa. Moda é a 4ª maior indústria do país, acho que há um entendimento maior disso. As pessoas não tratam mais o assunto como supérfluo. Moda gera empregos e, acima de tudo, é um denominador antropológico. Entender a moda é entender o pensamento vigente das pessoas.

F – Um pouco da coleção verão 2013: vimos certa influência nômade, cigana, étnica. De forma geral, isso é uma característica da Neon como marca ou vocês apenas recorrem a esse tema em algumas temporadas, na hora a criação?
DB – Isso tem a ver com aquela frase que te falei, minha legenda “Gypsy Heart”. Acho que, no mundo contemporâneo, somos todos ciganos. Cruzamos o mundo todo dia, seja física ou digitalmente. Somos mesmo uma aldeia global. Esta é a razão, acredito, pela qual o cigano é tão forte no meu trabalho e na marca. Na verdade, acho que é mais uma característica minha do que da Rita, um alter ego mesmo. Eu sou assim, sou acessórios, turbante na cabeça, balangandã, cores… Essa figura acaba saindo do imaginário mesmo e vai para o trabalho.  Minha preocupação no meu trabalho não é buscar o novo. Eu busco me aprofundar no meu próprio estilo e na minha visão de mundo. Acho que o que salva o profissional contemporâneo é a sua identidade. Então, busco aprofundar o olhar para dar minha melhor contribuição para a moda.