ENTREVISTA – ANDRÉ PAVAM

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Não há um juiz-forano sequer que não o conheça. Top of mind  – no melhor sentido da expressão – no quesito hairstyling, André Pavam é um nome que se confunde com muitas histórias que se desdobram em nossa cidade. Envolvido na produção do Miss Brasil Gay desde os seus primeiros anos – e cuja próxima edição acontece no dia 17 de agosto – o visagista esteve sempre presente nos bastidores dos principais eventos de moda e beleza de Juiz de Fora.

Como um bom vinho, Pavam amadurece melhorando a cada dia. Talvez por sua disposição e dedicação ao seu trabalho, que considera um hobby. Talvez, por ter vivido tão bem todos esses anos – do auge do new wave, à mescla democrática que é a moda, hoje em dia. O mosaico no final da entrevista revela muitas faces de Pavam que você ainda não tenha visto. Imagens incríveis de um perfeito camaleão, nesses tais anos 80 dos quais ele tanto sente saudades.

Raquel Gaudard

Se você não fosse hairstylist, o que você seria?

André Pavam

Sempre digo que faria mesmo alguma das muitas coisas que já faço, como produção para eventos, desfiles, revistas e tudo que está ligado a moda, beleza, visagismo e tendo sempre um olhar para o belo o que realmente me define e sou como profissional é ser cabeleireiro. Nunca pensei em ser outra coisa, mas se fosse o caso, seria ainda na área das artes, estética e beleza, talvez um designer de interiores.

Raquel Gaudard

E no seu trabalho, qual é a dor e a delícia de ser o que é?

André Pavam

Dor não faz parte do processo, pois quem faz o que ama só pode agradecer. Costumo dizer que o que faço não é um trabalho, mas um “hobby lucrativo”. Agora, se tivesse que falar sobre alguma dor, seria a do corpo, depois de longas jornadas de trabalho que fazem parte da nossa rotina diária. Mas isso é só um detalhe perto de tantas recompensas. O prazer de ver pessoas felizes com a imagem refletida no espelho – que mostra muito mais do que aquilo que vieram procurar, como a melhoria estética do visual que se propuseram a fazer – não tem preço. Ser cabeleireiro é criar, transmitir e emocionar. É emoldurar a alma e personalidade de uma pessoa.

Raquel Gaudard

Em termos de personalidade visual, qual a sua opinião sobre o momento que estamos vivendo na moda e estilo? Você acha que as pessoas já foram mais criativas, visualmente falando, em décadas passadas?

André Pavam

Com certeza já tivemos momentos mais criativos. Lembro-me de uma matéria publicada pela revista F. Cultura de Moda (leia aqui) sobre choque de criatividade, que traduz muito bem essa situação. As pessoas estão numa zona de conforto: “o que dá certo ou é bom para o outro é bom pra mim também”. Tipo “copiar e colar”, relaxando no sentido da busca de uma identidade própria, visual adequado e com personalidade. Nem todo mundo pode ser “loira de cabelos lisos” (nada contra, que fique bem claro), mas é isso o que temos visto, em geral.

Raquel Gaudard

E qual foi a época, na sua opinião, em que os cabelos refletiram mais personalidade?

André Pavam

Com certeza os anos 80! Foi um mix de 60 e 70, com um toque do glamour dos anos 40. Além disso, tinha um movimento de criação, em que as pessoas se permitiam experimentar e ousar sem medo. Quando, de alguma forma, o resultado não era positivo, fazia-se outra coisa a partir disso. Os curtos eram mais explorados, hoje as pessoas têm muita resistência, limitando o nosso processo criativo na construção da “moldura” e de um visual com personalidade. Os penteados tinham um toque de rebeldia e revolução. Nas cores, tudo era permitido. Hoje vemos um discurso de mudança, mas no fim acho tudo politicamente correto demais. A cliente quando senta na cadeira para cortar a primeira coisa que diz é : “pode fazer o que quiser, quero mudar, mas não tira no comprimento”. Tudo bem, nós respeitamos a escolha, mas perde-se ali a chance de se criar um look com alma. Isso limita em 80% as chances reais de mudança e, consequentemente, a oportunidade de ficar feliz, de fato, com seu corte.

Raquel Gaudard

Entendo… e quem é seu ícone de beleza da década de 80?

André Pavam

A cantora Debby Harry da banda Blondie – ícone das musas louras, que inspirou Madona – Boy George, do Culture Club e a rebeldia andrógina e talento incríveis do cantor compositor e artista Prince. E claro, o eterno David Bowie, pelo “conjunto da obra”. Ah, e a grande beleza brasileira de Luiza Brunet.

Raquel Gaudard

Amo todos e todas que você citou. Em seu salão, além da parte reservada para produção de moda, vocês contam com um espaço para os homens. Como você enxerga esse filão, dos homens se cuidando com os mesmos detalhes do universo feminino?

Adoro essa abertura que o homem de hoje se permite. CInquenta por cento dos meus clientes do sexo masculino cortam, pintam, fazem sobrancelhas e, no dia do casamento, fazem a make nude para aparecerem bem na foto! Super descolados, adoro!

Queria falar um pouco sobre Miss Gay – há quanto tempo você abraçou o evento e quais são as suas responsabilidades?
André Pavam

O evento tem 36 anos, comecei a frequentar há 32 e efetivamente trabalho no Miss Brasil Gay há 28. Comecei como assistente do Chiquinho Motta, criador e idealizador do evento. Depois passei a ser o apresentador e assim que deixei o palco me tornei o coordenador e diretor criativo do espetáculo. Coordeno os concursos estaduais juntos com seus respectivos organizadores, cuido das misses e tudo o que envolve a participação delas no concurso. Além disso faço a concepção e direção dos shows e performances que serão apresentadas no evento.

Um remix de André Pavam nos anos 80.

Raquel Gaudard

E você acha que o evento ajudou/ajuda a tornar o diálogo da igualdade de direitos civis dos homossexuais mais próximo da sociedade, de forma geral? Durante todos esses anos, como você acompanhou a aceitação do evento na cidade e no Brasil?

André Pavam

Sem dúvida nenhuma o evento ao longo dos anos conquistou a simpatia e a admiração da cidade e de todo o país, por seu caráter sério como concurso de beleza, bem como um evento que traz respeito e agrega e muito na questão do turismo de eventos de JF. O retorno financeiro é enorme, movimenta 51 setores da economia local, direta e indiretamente, além da mídia para a cidade em todo o país, já que é o mais importante do calendário GLSBT do Brasil. A grande conquista vem quando mostramos que o belo, a competição sadia, a criatividade e arte do transformismo levam alegria e vida a todos que participam do evento e ao público em geral, que acompanha e assiste a esse grande espetáculo que envolve estilistas, maquiadores, cabeleireiros, djs, artistas e todos os tipos de profissionais que se envolvem de alguma forma para garantir o sucesso do Miss Brasil Gay.

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