LIFESTYLE – AMISH

Publicado originalmente pela Revista F. Cultura de Moda edição #9 – Tempestade e Ímpeto.

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(c)Daniel Rodriguez. http://www.danielrphoto.com

Walter Rodrigues primavera-verão 2012. (c) Márcio Madeira.

Estilo de vida anabatista é inspiração para a moda. Por Hellen Katherine.

Por volta de 1690, o religioso protestante Jacob Ammann formou uma classe de anabatistas, cujo princípio básico pregava a simplicidade, a humildade e o desprendimento, bem como uma vida regrada e baseada na interpretação literal da Bíblia. Foi o ponto de partida para o surgimento de um grupo, espalhado pelos EUA e Canadá, do qual, aproximadamente, 250 mil cristãos fazem parte – segundo dados de julho de 2012.

A vida no campo, a ausência de tecnologia, o uso de lampiões, o culto doméstico – não há igrejas, a prática religiosa ocorre dentro das casas, por meio de rodízio -, o transporte por carroças e o sistema de comércio singular são algumas características da rotina Amish. Ordnung, traduzido como a Ordem são uma série de regras não escritas que guia a vida e a fé das comunidades. Os não-Amish, cidadãos do mundo contemporâneo, são conhecidos como Ingleses.

Estas e outras particularidades são objeto de pesquisa do professor Donald Kraybill, especialista amplamente conhecido por seus livros e estudos anabatistas. Seu trabalho aborda a investigação desse lifestyle em nível nacional, atentando para a contribuição desses cidadãos na construção da própria identidade americana.

A relação dos Amish com a tecnologia, um dos pontos mais distintivos e curiosos da cultura, é classificada por ele como seletiva. Existem comunidades mais radicais que outras e a decisão baseia-se na percepção que eles têm do impacto da ferramenta – se positivo, pode ser aceita. “Todas as comunidades acreditam, por exemplo, que ter e dirigir um carro irá fragmentá-las e separá-las.”

A fama de isolamento, radicalismo e tristeza impede que a cultura Amish seja verdadeiramente compreendida. Segundo Donald, eles compram a vendem produtos, interagem com vizinhos Ingleses e mantêm boas relações dentro e fora de suas comunidades. “Não é correto dizer que eles são isolados. Eles são capitalistas também. É um estereótipo errado”, afirma.

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(c)Daniel Rodriguez. http://www.danielrphoto.com

Aos 16 anos, antes de serem batizados e tornarem-se, oficialmente, membros da cultura, aventuram-se no período chamado Rumspringa. Durante este tempo, podem agir sem a supervisão dos pais. Assim, se decidirem pelo batizado, o fazem conscientes. “Senso de comunidade, senso de identidade e de radicação tornam a cultura Amish atraente. Cerca de 85% desses jovens optam por viver dentro dela.”

Prova disso, explica o professor, é a estimativa de que a população Amish dobre a cada 20 anos. Isso significa um futuro de comunidades cada vez mais variadas, com a tendência de surgirem novas formas de viver dentro da própria Ordem. Mas há desafios nesse caminho, como o aumento do custo de vida na fazenda que, às vezes, força-os a trabalhar para Ingleses. “Além disso, a tecnologia está avançando em algumas comunidades, com uso de computadores, celulares e, em algumas, até smartphones.”

Na moda

A indumentária é, para os Amish, mais do que vestimenta, mas instrumento que sinaliza seu comprometimento e separação das tendências americanas – também baseada na interpretação de versos bíblicos, onde lê-se o princípio de “separação do mundo”. “A aparência simboliza a identidade que os une como uma religião minoritária e que os distingue do mainstream”, destaca Donald. Apesar de um bom número de pequenas variações entre os subgrupos, a rusticidade e a simplicidade são traços comuns reconhecidos. As peças são artesanais – mas o tecido e a linha são comprados.

Mulheres usam vestidos largos e aventais de cores variadas, quase sempre em tons escuros e pesados, jamais estampados. Meias e sapatos pretos combinam com o kapp, que cobre os cabelos em tranças e coques. Para as rezas, é reservado um manto branco.

Já os homens só aparecem em público de chapéu, de feltro ou palha natural, com ternos, suspensórios e sapatos pretos. Se casados, devem manter a barba, em mais uma clara referência bíblica. Bigodes não são usados, pois remetem aos oficiais militares – a associação com guerras é evitada. Os acessórios também não são utilizados, incluindo os botões, que são substituídos por ganchos ou alfinetes.

Essa estética simplória já inspirou, no início de 2012, Walter Rodrigues, que desfilou, no Fashion Rio, um inverno comportado, onde tons escuros e silhueta discreta foram combinados com chapéus bastante simbólicos. No ano seguinte, Sarah Burton apresentou o pré-inverno 2013 da Alexander McQueen, com uma coleção repleta de contrastes entre o pudico e o ousado, através de uma cartela de cores neutra que revelava a inspiração religiosa da estilista.

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