O NOVO GÓTICO

Originalmente publicado pela Revista F. Cultura de Moda #10, edição Tempestade e Ímpeto. 

por Raquel Gaudard.

CATEDRAL-DE-SAINT-DENIS

Catedral de Saint Denis.  

Uma novela gótica do século XIX poderia facilmente ser encenada com o “figurino” do inverno 2013. Pense em cores escuras, porém vibrantes, como a paleta de cores de Frida Gianinni para Gucci, por exemplo. Vinho, roxo, verde-esmeralda… Tal atmosfera dark, contrastante, também pode ser obtida com o uso de veludo, transparências e rendas – dentre outras propostas para essa estação. Jean Paul Gaultier e Versace nos provam que o crucifixo é o acessório fetiche que orna a melancolia e a introspecção que contaminaram a produção criativa na moda.

É na alternância e simplicidade do branco e do preto que percebemos, também, um approach com o estilo gótico original e seu pensamento medieval teocentrista: daí, surgem referências da vestimenta de bispos e de clérigos – da igreja católica à anabatista –, envoltas numa aura de mistério, bem peculiar aos dogmas religiosos. Sarah Burton para Alexander McQueen, por exemplo, parece ter aberto o guarda-roupa dos peregrinos puritanos que colonizaram a América do Norte, para o seu outono 2013. Está tudo ali.

A personagem hacker Lisbeth Salander – vivida por Rooney Mara em “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” (dezembro, 2011), parte da trilogia “Millenium” do sueco Stieg Larsson – não tardou a se tornar a musa gótica da moda. Nesse caso, o perfume é contemporâneo e cibernético, com muito couro e piercings all over the body. Além de servir como inspiração para algumas coleções, a beauty pálida, com olhos esfumados, sobrancelha apagada e franja curtíssima – que caracterizaram a personagem de Rooney -, caiu nas graças das editoras de moda e logo estava a moça nas principais revistas do segmento.

Vários recortes na história revelam sangramentos do pensamento gótico, como o estilo vigente na Idade Média, seu resgate pelo romantismo no século XIX – principalmente na literatura de Mary Shelley, Edgar Alan Poe, Oscar Wilde, Goethe e Bram Stocker – e, finalmente, na década de 80, configurando-se numa contracultura derivada do punk e muito influenciada pela música. Siouxie and the Banshees, The Cure, Bauhaus e Joy Division são referências para a época que também ficou conhecida como dark wave, no Brasil.

Giorgio Vasari, “fundador” da história da arte, menciona pela primeira vez o gótico de forma pejorativa, referindo-se ao conjunto de produções artísticas e arquitetônicas da Idade Média como algo obscuro e negativo, típico de vândalos. Por isso, cunha a palavra associando a estética medieval aos “godos”, povo bárbaro que destruiu a Roma Antiga, em 410. Mas essa conotação negativa não mais é reconhecida, assim, percebemos na moda atual também incursões no universo das vestimentas medievais, como as cotas de malha dos guerreiros.

Considere, nessa e nas próximas estações – já que o novo gótico da moda insistiu nas passarelas das temporadas de inverno 2013/14 –, incorporar ao look a carga da emoção despertada ao adentrar as grandiosas catedrais de pedra – que nos fazem sentir pequenos, introspectivos, subjetivos. Aproveite as sugestões de estilo das imagens, para configurar um visual misterioso, definitivamente fresh&dark. O gótico é sempre novo. Imortal, nunca envelhece.

Com imagens gentilmente cedidas pelas assessorias das marcas e via Trendstop.com.

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Para ler a matéria diagramada na Revista F. acesse o link: www.fworksprodutora.com.br/f9

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