WITCH HOUSE

Publicado originalmente pela Revista F. Cultura de Moda edição #9 – Tempestade e Ímpeto.

A casa das bruxas em chamas. Por Daniel Varotto.

5cmyk

DROME Magazine
n.19 The Supernatural Issue
Spring/Summer 2011

styling by Irene Manicone
make up : Ole Elias Reinholdtsen Høve
Hair: Takuya Morimoto
model: Bronte
© 2011

 

Entre 1692 e 1693, cerca de 25 pessoas foram executadas, acusadas de bruxaria em Salém, Massachusetts, EUA. Inspirado neste evento, o estilista ainda vivo Alexander Mcqueen realizou sua coleção de Outono 2007 RTW.

Em Chicago, EUA, John Holland, Heather Marlatt e Jack Donoghue, do grupo S4LEM (Salem), lançam seu primeiro EP, em 2008. Riccardo Tisci, diretor criativo da Givenchy, realiza um desfile dark na Primavera 2011, cuja trilha é desse mesmo grupo. E o novo estilista Gori de Palma lança sua coleção Primavera 2013 nas passarelas de Barcelona, intitulada Witch House.

Gori de Palma

Como gênero musical, a Witch House é um eletrônico denso como uma neblina, com a união do rock gótico e da darkwave – que parecem desenhar um cadáver para um ritual na floresta -, além de batidinhas sujas do rap sulista americano ou do funk carioca. Ora chamada de Drag, ou Shoegaze, o termo Witch House foi cunhado por Travis Egedy, do grupo PicturePlane, inicialmente como uma piada.

O nome foi mencionado, em seguida, por mídias mainstream, disseminando-se entre os Tumblrs com fotografias antigas e granuladas de conventos, gravuras com referências ao demônio, montagens digitais com cores fluo gritantes, ícones pop entrecortados e símbolos de bruxaria. Tudo isso sob efeito de drogas duras e de programas de síntese sonora.

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Fever Ray. (c) Divulgação.

Originalmente como mixtapes de garagem, hoje temos os principais grupos S4LEM, oOoOO (Ôh), Balam Acab, White Ring, †‡† (rrritualzzz), LAKE R▲DIO, Fostercare, Master Suspiria Vision, Modern Witch, entre muitos outros. O uso de caracteres, como cruzes e triângulos, remete à simbologia de algumas Ordens e, ainda, outros caracteres unicode que dificultam a popularização e banalização do gênero, que se via como isolado, resistente e, sobretudo, gratuito. Vários artistas “dark” nesses últimos três anos foram influenciados pelo gênero.

Um certo ocultismo invade a criação estética de vários artistas e grupos musicais, como Karin Dreijer Andersson, com o seu projeto Fever Ray, que solidifica uma “witch” tribal. Ou o grupo “Austra”, que utiliza tercituras vocais e visuais “witch” ou neo-barroco, com a canção “Spellwork”. “The Choke” constrói tríades de imagens com uma ligação intrínseca, formando triângulos metafóricos: “The mouth, the breath, the smoke” – A boca, o respiro, a fumaça.

A história da bruxaria é constituída de histeria coletiva, de perseguições contínuas e de discriminação de raça e de sexo. Como a própria humanidade, aqui os temas são o isolamento, extremismo religioso e imprudência de valores.

O credo no oculto sempre esteve presente em todas as culturas, principalmente com relação aos fenômenos naturais e a uma forma de medicina e de alterações do estado mental. Invocações de espíritos que fariam chover, o cultivo de plantas medicinais, uso do fogo como uma terapia etc. Esses conhecimentos ritualísticos aplicados eram realizados com objetivos claros. Mesmo a magia negra poderia buscar, através de atos negativos, o bem alheio.

De maioria feminina, as bruxas romperam com as instituições sociais, como o casamento. A ideia de diferença de valores – celibato, intrigas ou falta de comunicação, esterilidade, demência, homossexualidade, interesse pelo oculto ou substâncias – formava uma noção de bruxaria que autorizava a igreja a subjulgar esses indivíduos como adoradores do demônio e ter, unicamente, o modelo da mulher como um ser fértil e servil.

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