ENTREVISTA – JOÃO PIMENTA

Publicada originalmente pela Revista F. Cultura de Moda #9 – Edição Tempestade e Ímpeto.

Por Daniel Varotto

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João Pimenta nos ajustes finais do seu desfile inverno 2013, na SPFW. “As pessoas têm preguiça de conceito, querem mesmo é ver o produto final”, afirma.

Optando por uma aproximação com um público que deseja fugir do convencional, João Pimenta nos revela, na última SPFW, peças de alfaiataria sob medida para os homens.

O mineiro de São Sebastião do Paraíso cresceu no interior paulista e é estilista autodidata. Tendo trabalhado até como empacotador em sua cidade natal, foi em São Paulo, mais tarde, que ganhou notoriedade com materiais improváveis em minissaias.

Em 2005, trabalhou com figurinos para a publicidade até lançar sua própria marca. Inicialmente focado no universo feminino, João percebe que vários consumidores homens compravam alguns itens de sua coleção para eles mesmos.

Hoje, dedicado à moda masculina, tem os olhos do mundo para o seu trabalho. E a F. Cultura de Moda decidiu entrar mais profundamente no seu universo, que vai além do Barroco e do Medieval – como o conhecíamos -, revelando uma faceta leve, contemporânea e elegante.

João Pimenta verão 2014 – SPFW.

F. – A mídia ressalta seu desfile Verão 2014 como um novo fôlego para a moda masculina atual, com uma interpretação mais comercial. Existe mesmo uma vontade de estar mais próximo do consumidor?

João Pimenta – Sim, existe muito essa vontade de me aproximar do consumidor. Talvez desta forma o trabalho aconteça de verdade, pois poucas pessoas digerem bem o conceitual.

F. – Pude ver um grafismo contemporâneo, minimalista e tribal, bastante presente no seu último desfile, bem como um contraste forte da paleta de cores. Quais são as inspirações diretas pra essa coleção?

João Pimenta – Tenho bastante interesse por pintura corporal indígena brasileira, por isso absorvi alguns recortes nas roupas. Os grafismos, também indígenas, são desenhos realistas que usei como estampa de gravataria. As cores são as mesmas usadas para a pintura corporal, preto azulado e vermelho urucum. Tenho na coleção essa mistura de índios e militares europeus.

F. – A mídia aponta que um estilista ousado teria dificuldade de se fixar no mercado atualmente. Você concorda? Como você vê essa distância entre a passarela e o consumo?

João Pimenta – Sim, infelizmente, vejo que essa distância deveria ser muito mais lúdica, mas as pessoas têm preguiça de conceito, querem mesmo é ver o produto final.

F. – Mesmo reconhecendo uma coleção mais comercial, o corte é moderno e o uso de volumes do universo feminino remodelando o corpo masculino é um diferencial. Como é o seu consumidor?

João Pimenta – Tenho uma mistura grande de pessoas que se identificam com a minha criação, mas, na maioria das vezes, são pessoas relacionadas à arte.

F. – Você acaba de realizar uma instalação no CCBB-SP, envolvendo sua coleção Inverno 2012. Me parece que o tom barroco do desfile se concretizou em – ou partiu de – uma cena mais macabra, com a presença de máscaras bufônicas e chifres, que não se encontravam no desfile. Como você iniciou esse projeto ?

Backstage inverno 2013 – João Pimenta na SPFW.

João Pimenta – Pagle doctors são os personagens que uso na instalação para expressar uma cena de morte. São médicos que usavam bicos com ervas para não sentir o cheiro dos doentes da lepra e um cajado para movê-los. Gosto de usar a morte como divisor, como fim e começo.

F. – Numa hierarquia, você é estilista ou artista plástico? E como você vive o cruzamento entre moda e arte?

João Pimenta – Busco ser estilista, mas adoro o quanto as roupas podem falar, como elas podem mexer com o espírito – como faz a arte.

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Para ler a entrevista diagramada na Revista F. Cultura de Moda acesse o link: www.fworksprodutora.com.br/f9

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