ARTESANATO CONCEITUAL

Publicado originalmente pela revista F. Cultura de Moda #9, edição Tempestade e Ímpeto.

Associação com o design valoriza objetos feitos à mão.  Por Raquel Gaudard.

Rogério Batista, 52, é artista plástico, designer e guarda muitas histórias. Através delas, contadas uma a uma num bate-papo informal – talvez como devessem ser tomadas as informações de todo artista –, foi possível tecer o enredo que serve de discurso para os produtos desenvolvidos por seu Atelier Monge, localizado em sua casa, em Juiz de Fora. “Praticamente uma regressão”, ele diz, com semblante satisfeito até, ao se referir à tarde em que passamos conversando.

sized_Rogerio Batista

Rogério Batista

Num mundo onde as pessoas se acostumaram a armazenar suas memórias nas “nuvens”, em espaços virtuais, a ideia de Rogério Batista é diametralmente oposta: produzir objetos tangíveis, todos com gavetas, exatamente como guardávamos antigamente nossas lembranças textuais, fotográficas ou coisas queridas para serem redescobertas mais tarde. Aquelas tais “felicidades clandestinas”.

Nas paredes de seu ateliê e em suas estantes, dividem espaço imagens sacras do catolicismo e, ao mesmo tempo, referências à cultura oriental, como o Budismo e o I Ching. E toda essa dialética também se reflete na construção de suas caixas – o visual é monástico, mas há uma clara referência à terra do sol nascente.

Caixas Monge – conheça outras peças de Rogério Batista em www.caixasmonge.com.br

O aspecto das peças é gótico medieval, cuja beleza reside nessa melancolia do monge enclausurado em seu mistério. “Eu não consigo nadar apenas na superfície das coisas”, diz o artista. Por isso, apesar de ter recebido uma formação tipicamente cristã, seu mergulho mais tarde foi nas meditações e na busca do seu próprio eu – ânima da filosofia oriental.

Em 2001, em parceria com o amigo artista Marcos Gonzaga, Batista apresentou a exposição “Correspondências”, uma reunião de cartas trocadas entre os dois durante três anos, explorando exatamente o hábito do missivista de conservar as respostas de suas mensagens enviadas. Mas essas eram correspondências especiais, verdadeiros objetos de arte, enviados pelos amigos em pequenas caixinhas, cujos textos eram escritos das formas mais inusitadas possíveis. O verbo “guardar” sempre esteve presente na vida de Batista e tudo isso serviu como semente fundadora do Atelier Monge.

Correspondências

Correspondências (2001), de Rogério Batista e Marcos Gonzaga.

Utilizando basicamente papelão Paraná e Bismark, totalmente reaproveitáveis, revestidos com scrapbook paper, coador de café usado, tinta acrílica e cera pátina, suas “caixas de guardados” simbolizam o claustro de cada um. A visita a um mosteiro, na década de 80, foi marcante na vida de Rogério e a introspecção virou registro flagrante em suas obras, que são constituídas, ainda, por ilustrações.

“As peças do Monge são releituras de caixas antigas, não meras cópias”, enfatiza Rogério, lembrando a ideia básica do Artesanato Conceitual, que se difere das outras categorias artesanais por se associar ao design. Os projetos desenvolvidos guardam a afirmação de um estilo de vida ou afinidade com alguma cultura e são geralmente desenvolvidos por pessoas que têm algum tipo de formação artística. Mais do que isso, é o índice de que houve um conceito cultural, em que predomina a produção de pequenas séries e onde a inovação é a força motriz.

Partindo dessa mesma premissa de Rogério Batista – a do design aliado ao artesanato –, mas unindo vidro, estanho e chumbo, o vitralista Célio de Moura, 58, recria, diariamente, a arte milenar dos vitrais, surgida na Idade Média.

Vitral Colégio dos Jesuítas

Vitral do Colégio dos Jesuítas, em Juiz de Fora, é assinado por Célio de Moura. A obra foi premiada pelo Instituto de Arquitetura do Brasil, em 1999.

Em 1999, foi premiado em quarto lugar pelo Instituto de Arquitetura do Brasil, na categoria Obra Construída, pela confecção de um vitral de 130m² contínuos, em 360º graus, para o Colégio dos Jesuítas de Juiz de Fora – Capela Santo Inácio. “Comecei elaborando projetos e restaurando vitrais antigos”, conta Moura, que está no ramo desde 1980.

Segundo Célio, para se criar um vitral “é preciso ter conhecimento de desenho artístico e desenho técnico, talento e muita inspiração”. As restaurações que fez no início de sua carreira como artista foram “ricas fontes de pesquisa e aprendizado”, além da troca de conhecimentos com outras pessoas que já trabalhavam na arte dos vitrais.

O vitralista Célio de Moura.

Conforme comprova Adélia Borges, jornalista especializada em design, em seu livro “Design+Artesanato – caminho brasileiro” (Terceiro Nome), a importância de se deixar contagiar pelo afeto, memória e cultura impregnados nos objetos artesanais deve ser em igual medida à adequação da sua forma e função. Para a autora, o valor agregado que o design confere ao artesanato ajuda a enfraquecer o preconceito de inferioridade muitas vezes conferido ao feito à mão.

“Uma vez me perguntaram o que eu sentia assim que a ideia surgia, e como a passava para o primeiro traço no papel. Não pude responder, porque são muitas as inspirações, paixões, influências. Cada vitral é um desafio novo, me solicitando inspirações diferentes”, confessa Moura.

Para Rogério, o artista, ao contrário do artesão, não tem a preocupação sobre o que as pessoas vão pensar a respeito do resultado final de seu objeto. Moura completa o raciocínio: “primeiro a arte precisa me agradar, para que seja possível agradar aos outros”.

De modo geral, segundo explica Moura, o que o move na arte dos vitrais é o “desejo de ver harmonia, leveza e bom gosto na composição e nos detalhes, por mais simples que possam ser, para encantar quem tiver a oportunidade de admirá-los.” E Rogério garante que seu trabalho é resultado de sua paixão e que, mesmo sem ganhar rios de dinheiro, ao menos, lhe confere uma sobrevida com prazer.

caixasmonge.com.br

vitraismoura.com

adeliaborges.com

—-

Para ler a matéria na Revista F. acesse o link: www.fworksprodutora.com.br/f9