ESPELHO, ESPELHO MEU

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Originalmente publicado pela Revista F. Cultura de Moda – edição Tempestade e Ímpeto (jun/2013).

Por Valéria Borges, com ilustração de Tiago Gandra.

A indumentária infantil representa o grupo social no qual a criança está inserida e revela os valores de uma classe ou tribo. Talvez fosse oportuno avaliar a faixa etária, o sexo, além das necessidades de cada criança – no que concerne às atividades realizadas na escola e fora dela -, antes de definirmos o guarda-roupa ideal para nossos pimpolhos. Mas, na escolha do vestuário infantil, seriam os filhos “fashion-victims” dos próprios pais?

A psicóloga Ana Paula Verly Coelho explica que “a questão do vestuário infantil, hoje, está cada vez mais ligada ao consumo. Numa fase em que a criança está se abrindo para o mundo, seja na escola, clube ou grupos de amigos, ela quer ser aceita e a vestimenta passa a ser um dado importante nesse processo”.

Lindas meninas-princesas com vestidos rodados ou gatas descoladas com a última moda das revistas? A questão não é tão simples, não existe uma regra básica para compor um guarda-roupa infantil ideal. Mas as consequências da escolha da vestimenta na formação do indivíduo são de uma nuance perversa, pois muito sutil.

Muitas vezes, projetamos nossos desejos, frustrações e expectativas nos filhos e, na hora da escolha da roupa, essa projeção do desejo do adulto na criança fica bastante evidente – o que pode ser prejudicial, pois associa a imagem deste pequeno indivíduo ao ter, e não ao ser.

No caso das meninas, as roupas de minissedutoras veiculam a imagem de uma sexualização precoce e, no caso dos meninos, a necessidade de exibir o poder masculino, muitas vezes, é representada através do uso exagerado e ostensivo de marcas de luxo. Estes são dois exemplos bem típicos, fáceis de observar nas ruas ou nos shoppings centers.

Consumidor infantil também é público-alvo

As crianças estão na mira da publicidade. Por isso, o consumismo infantil é um problema que não está ligado apenas à educação escolar e doméstica. Embora a questão seja tratada, quase sempre, como algo relacionado apenas à esfera familiar, crianças que aprendem a consumir de forma inconsequente desenvolvem critérios e valores distorcidos, sendo considerado um problema de ordem ética, econômica e social.

A publicidade é ato comercial, eminentemente um instrumento de persuasão com função de venda, para a promoção do consumo de produtos e serviços. E o público infantil não está maduro o suficiente para reconhecer as técnicas de venda. Por ser instrumento de atividade econômica, a publicidade pode ser restringida quando ferir outros direitos constitucionalmente protegidos, como à saúde, à educação ou à infância.

Ana Paula alerta que pesquisas apontam a influência das crianças nas decisões de compra de uma família e que, cada vez mais jovens, estão mais independentes com relação à moda, exigindo marcas e grifes especiais. No final das contas, são dadas à criança independência e autonomia numa etapa de seu desenvolvimento em que ela ainda não está preparada para tal.

“A mídia trabalha, muitas vezes, com crianças como consumidoras e modelos. Assim, elas também são maquiadas e vestidas com padrões adultos e gestos sensuais em fotos e desfiles. Os estilos da criança e do adulto no vestuário estão, cada vez mais, se fundindo”, aponta Ana Paula.

Na verdade, as meninas são as mais prejudicadas no aspecto do conforto e funcionalidade e mais estimuladas a uma erotização precoce. A psicóloga conta relatos de meninas que se sentem constrangidas se tiverem que “repetir a roupa”. “Isso compromete seu status grupal, daí elas passam a preferir quantidade à qualidade e entram num consumismo exagerado”.

Por outro lado, acrescenta Ana Paula, existem empresas, grupos e movimentos, como a Aliança pela Infância e o Instituto Alana, em Juiz de Fora, que trabalham pela preservação e garantia de condições para a vivência plena da infância, onde temas como esse são estudados, debatidos e ações são operacionalizadas.

“O olhar aqui também deve se voltar para nós, adultos, que temos que nos responsabilizar pelo desenvolvimento saudável de nossos filhos, não apenas no aspecto físico, mas, também, emocional e espiritual. Deve-se respeitar cada fase da vida em que eles se encontram e procurar não queimar etapas de seu desenvolvimento, com estímulos precoces”, conclui.

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