PROFISSÃO FIGURINISTA – MODA EM TRÊS ATOS

(COMO PUBLICADO PELA REVISTA F. CULTURA DE MODA #6)

Além do seu teclado, as interseções e links da moda podem se desdobrar numa profissão tão antiga quanto a do estilista. Por Dani Sartori.

Site-especific e figurino assinado pelas irmãs Mulleavy, da Rodarte.

Com uma carreira recente e um processo criativo afiado, as californianas Kate e Laura Mulleavy, da grife Rodarte, se lançam na construção de uma nova linguagem de moda contemporânea e dão novo fôlego à profissão de figurinista.

Depois de criar uma instalação para a feira italiana Pitti Imaggine, que hoje faz parte do acervo do Los Angeles Country Museum of Art, e elaborar o figurino do filme Cisne Negro, a expectativa em torno das irmãs que estudaram história da arte e literatura moderna, respectivamente, se volta para a criação dos trajes que serão apresentados na montagem da ópera “Don Giovanni”, de Mozart – com estreia prevista para maio, pela Filarmônica de Los Angeles.

Um século antes, Paul Poiret preparava o mundo para uma grande transformação, em seu primeiro ato: inspirado pelas formas Art Nouveau, cria uma nova silhueta feminina, mais leve e flexível ao corpo. Num segundo momento, Poiret, um amante da cultura oriental, colore os guarda-roupas que, até então, se limitavam a uma cartela de cores austera, quase monocromática.

No seu terceiro ato revolucionário, o designer passa a produzir os figurinos das atrizes de cinema da época e se associa a diversos artistas e colaboradores, a fim de elaborar uma moda que, pela primeira vez, se libertava do conceito de simplesmente reproduzir peças de roupas.

Depois disso, Coco Chanel foi, durante um curto período de tempo, figurinista da Metro-Goldwyn-Mayer; Hubert, de Givenchy, consagrou, no cinema, a elegância de Audrey Hepburn; e Paco Rabanne confeccionou o estilo ultra moderno de Jane Fonda em Barbarella, sem falar nos diversos figurinos elaborados por Christian Lacroix para óperas, ballets e peças de teatro.

Voltando para a atualidade, no Brasil, o designer de moda Fause Haten se reinventa com uma carreira paralela à de estilista, como vocalista de uma banda e uma formação que inclui o teatro. Assinou o figurino de “Jekyll & Hide – O Médico e o Monstro”, criando a façanha de mais de 200 looks para o musical.

Também no cenário nacional, Lino Villaventura desenvolve figurinos para espetáculos – o que lhe rendeu uma indicação de melhor figurino no Prêmio Shell de Teatro. Em seu currículo, está um vídeo de suas criações, adquirido pelo Stedelijk Museum, de Amsterdã.

Figurino e foto por Filipe Matias PEQ(3)

Figurino, cenografia e maquiagem por Filipe Matias.

Em outro campo onde a moda e as artes podem se desdobrar na profissão do figurinista, encontramos o artista multidisciplinar e estudante de arquitetura e urbanismo da UFJF, Filipe Matias da Costa.

Sua ideia inicial era a de fotografar pessoas para capturar as posições corporais e retratá-las em pinturas. Com o intuito de melhorar as cores, texturas e luzes que imaginava, o trabalho evoluiu para a confecção de figurinos e cenografias que ajudavam a contar histórias.

Para Felipe, a criação do figurino, a maquiagem e a cenografia são importantes artifícios, que encorajam as pessoas fotografadas a uma libertação e permitem a vivência de situações e sensações que não se permitiriam de “cara limpa”.

A atmosfera lúdica é essencial na proposta de subversão do trabalho, que inclui desde uma Cinderela, com sapatos de metal, a uma Alice no País das Maravilhas, que se transforma em Chapeleira Maluca e Rainha de Copas.

yerma-grupo divulgaçãoPEQUENO

Yerma, Grupo Divulgação da Universidade Federal de Juiz de Fora.

A importância do figurino em contextualizar o personagem e ampliar as possibilidades de uma obra artística é uma das muitas linguagens utilizadas pelo Grupo Divulgação. Para José Luiz Ribeiro, diretor do grupo, “o teatro é uma arte múltipla e sua linguagem utiliza de várias vozes para produzir o significado dentro de cada narrativa.”

Segundo o diretor, o ator não é um cabide. Seu ofício exige que o uso do figurino informe ao público o que é importante na narrativa. Assim, a cor, a forma ou o material podem falar ao público antes que o personagem se mostre.

Na bagagem e na história do grupo, algumas boas recordações de figurinos elaborados por Maria Lúcia Campanha da Rocha Ribeiro, também conhecida como Malu. Em “Seis Personagens”, de Pirandello, o traje era um símbolo que definia cada personagem. “Nas obras ‘Yerma’ e ‘Calígula’, as cores ajudaram a acrescentar uma simbologia para o espectador”, lembra José Luiz.

Todo o caleidoscópio de possibilidades desenhado pela moda ao longo do século XX adquire, agora, um vigor contemporâneo, onde links e interseções não ficam restritos apenas ao alcance do teclado do seu computador. E essas janelas se abrem, uma vez mais, para essa profissão tão antiga quanto a do designer de moda: a do figurinista. Este, sempre disposto a impulsionar o discurso de cada espetáculo, através das suas criações em forma de roupa. Obrigada, Poiret!

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Confira a matéria nas páginas da revista F. Cultura de Moda no link: www.fworksprodutora.com.br/f6

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