ENTREVISTA – GIOVANNI BIANCO

(COMO PUBLICADO PELA REVISTA F. CULTURA DE MODA – EDIÇÃO #4)

por Raquel Gaudard

Estranho seria se, ao googlar o nome Giovanni Bianco, não viesse, logo nos primeiros links, o portifólio estrelado do diretor de criação e feliz proprietário do estúdio GB65. Você pode não ter ouvido falar nesse nome ou nessa sigla, mas os trabalhos que mostraremos aqui, certamente, já viu em alguma revista, internet ou – não raro – em sua prateleira de CDs. E vamos dizer o porquê.

Baseado em Nova York, Giovanni e seu estúdio contam com uma carteira de clientes recheada por nomes da moda como Versace, Dsquared2, Miu Miu, Arezzo, Dolce&Gabbana, Ermenegildo Zegna, ´S Max Mara, Forum e, para finalizar essa top list, em que, aqui, constam somente alguns de seus últimos trabalhos em branding, design gráfico, propaganda e vídeo, está ninguém menos do que a popstar Madonna. Desde o Re-Invention Tour, Giovanni vem cuidando da identidade visual desta que deve ser uma das “marcas” mais desejadas pelas agências e estúdios do mundo todo.

É sério? É. E também não é estranho, de fato, descobrir que o brasileiro, carioca e filho de imigrantes italianos não teve tudo isso por mero acaso do destino. Seu pai era feirante e Bianco soube desde cedo o valor da “transpiração” em cada um de seus trabalhos. Mas a mente criativa esteve sempre ali, fervilhando em seus 10%, o que levou o estudante de engenharia a desistir da faculdade para se tornar designer gráfico e – em seguida – encontrar na moda a maior expressão do seu trabalho artístico. Como o próprio artista nos descreve o processo, foi mesmo uma “mudança de rota, na qual tudo se torna mais vibrante”.

Assim que se mudou para o exterior – a princípio, foi morar em Milão, aos 21 anos, seguindo para Nova York, onde está desde 2001 -, teve contato com personas da moda, como Stefanno Gabbana, que reconheceram de cara o seu talento. O logotipo da D&G (segunda marca da Dolce&Gabbana) foi criado por Giovanni, depois de mostrar ao hoje amigo, Stefanno, alguns de seus trabalhos.

“A oportunidade de estar fora do Brasil foi fundamental para que eu desenvolvesse um trabalho global”, afirma Giovanni, em entrevista concedida à Duetto Fashion. E de tanto ser indagado por sua mais famosa cliente – Madonna –, decidimos deixar esse assunto de lado na entrevista para investigar mais o profissional por trás de tantas obras de arte. Mas é importante deixar claro que foi o talento – e não as celebridades com quem trabalhou – que fez Giovanni ser reconhecido mundialmente por seu trabalho. Isso posto, abrimos o próximo e breve parágrafo, apenas como um parêntesis.

Quem o apresentou a Madonna foi o fotógrafo Steven Klein, que já havia feito alguns jobs com Giovanni e sabia o calibre do artista. Daí, da capa da revista W ao livro X-STaTIC PRO=CeSS, assinar toda a identidade visual da musa foi um pulo. O primeiro trabalho para Madonna, envolvendo um álbum, foi concebido após uma famosa ligação da própria cantora para Giovanni. Depois de achar, por alguns momentos, que tudo não passava de um trote, Bianco realizou: era realmente a estrela do outro lado da linha e, a partir daí, acordaram o desenvolvimento visual da primeira gig como parceiros. Fecha parêntesis.

Um de seus recentíssimos trabalhos, muito comentado, é a nova campanha inverno 2011/12 da Versace que, pelas mãos do estúdio GB65, trouxe de volta as morenas para o casting da marca, formado por louras desde os idos de Gianni. Assim, novas linguagens, novas propostas e novas interpretações são sempre perceptíveis nos trabalhos de Giovanni Bianco. E, ainda que ele negue a existência de uma “assinatura”, as obras do artista se destacam como sendo suas em, pelo menos, um ponto: a ousadia criativa.

DF: Rio de Janeiro, Milano ou New York? Por quê?

GB: Eu amo as três cidades de maneira diferente, mas, é claro, o Rio de Janeiro tem seu lugar especial no meu coração. E também não posso me esquecer de São Paulo, que lindamente me acolhe.

DF: GB65 teria a ver com a matemática numerológica ou nada disso: apenas uma abreviação de seu nome e ano de nascimento?

GB: Apenas falta de imaginação, realmente o meu nome e o ano que nasci.

DF: Como o engenheiro tornou-se designer gráfico e foi trabalhar com moda?

GB: Mudança de rota, na qual tudo se torna mais vibrante, mas o engenheiro ainda mora em mim.

DF: Por que resolveu morar fora do Brasil? Você acredita que foi um fator decisivo na sua carreira? Ou você acha que, se estivesse por aqui, todos os trabalhos que se encontram em seu portifólio teriam acontecido de alguma maneira?

GB: A oportunidade de estar fora do Brasil foi fundamental para que eu desenvolvesse um trabalho global, mas o Rio de Janeiro foi importante na minha vida.

DF: Conte-nos um pouco sobre o seu processo criativo. Envolve sofrimento – como a maioria das mentes criativas – ou, ao contrário, sente-se tranquilo ao desenvolver e realizar um projeto?

GB: Como qualquer pessoa que faça um trabalho com paixão, acaba se envolvendo com os dois lados: o sofrimento e a tranquilidade. Os dois são fundamentais para todo processo criativo.

DF: Seu estúdio é formado por quantos e quais profissionais? Você gosta de trabalhar em equipe ou prefere uma criação mais solitária?

GB: Somos 14, só acredito em trabalho de time, jamais poderia ter feito nada se eu não tivesse a minha amada equipe.

DF: Sobre a moda no Brasil, Jum Nakao, em entrevista à nossa primeira edição, afirmou que a moda brasileira é refém de tendências internacionais, configurando “um trabalho medíocre de reprodução e adaptação”. Qual sua opinião sobre o assunto? Você acha que a moda nacional carece de identidade ou já temos bons estilistas produzindo coleções cada vez mais autorais?

Podemos ver isso de diferentes ângulos. Acho que ainda sofremos de olhar para fora, mas acho também que temos melhorado muito. Existe um grande esforço para que isso seja uma realidade e um dia acredito muito que vamos encontrar a tal da identidade brasileira.

DF: Li, certa vez, que você teria dito que a São Paulo Fashion Week é uma marca mais forte do que todas as marcas de moda nacionais, juntas. Por quê?

SPFW é uma empresa privada e, como tal, seu objetivo maior é criar força na sua própria marca. Isso é inevitável. Mas, ao mesmo tempo, só estamos andando porque a SPFW tem esse mega trabalho de unir todos e isso tem todo o meu louvor. É fundamental para a moda nacional.


DF: Giovanni Bianco é uma pessoa on-line ou off-line?

GB: Sempre on-line, ainda estou vivo. Quando estiver off-line, quero estar vivendo numa praia.


DF: Você tem 10420 seguidores em seu Twitter. Você tinha noção, antes de utilizar a ferramenta, de um número tão grande de pessoas interessadas no seu trabalho? Como você analisa essa rede social? Gosta dessa visibilidade?

GB: Apenas me divirto, uso o Twitter como um dos muitos instrumentos de comunicação. O lado de podermos expressar alguns pensamentos eu acho bacana, mas quando entra na vida pessoal, eu acho uma bobagem, não tenho menor interesse de saber o que as pessoas estão fazendo na sua vida pessoal. O que me interessa é ver o mundo rodando, o mundo vivo, e eu acho que o Twitter pode ser bem legal quando isso é visível, mas quando entra na esfera pessoal, acho muito chato.


DF: Quem você indicaria para ser seguido no Twitter? Alguém que, em 140 caracteres, consegue passar importantes pílulas de conhecimento?

GB: E quem disse que o Twitter é para passar conhecimento? É apenas um instrumento rápido para saber o que está acontecendo ao nosso redor. Eu não indicaria ninguém específico, cada um deve encontrar sua praia.


DF: Você tem predileção por algum trabalho que fez? Qual?

GB: Sempre o último. Eu não olho pra trás, não tenho interesse pelo ontem e também não tenho interesse pelo amanhã, só dou importância para aquilo que estou fazendo no momento. O resto só é interessante como arquivo e o futuro só me interessa para os meus sonhos, que ainda irei realizar.

DF: Um fotógrafo, um stylist e um maquiador?

GB: São tantos que, nessa altura da minha vida profissional, não acredito mais em listas de preferências. Acredito na lista do momento em que estou fazendo determinado trabalho, penso sempre assim, no HOJE.

DF: Quem inspira GB na música, nas artes e na moda?

GB: Tantos e tantos que não conseguiria te dizer, especificamente, o que nesse momento está me inspirando.

DF: Nossa cidade, Juiz de Fora – MG, com aproximadamente 730 mil habitantes, abriga três faculdades de moda – uma federal e duas particulares. Você acredita na formação acadêmica tradicional?

GB: Acredito que seja importante os jovens terem uma formação, uma experiência acadêmica sempre é interessante, mas também acho que não seja fundamental, a vontade e a determinação são mais importantes do que qualquer escola. Às vezes, os livros não são sinceros!

DF: Moda pode ser arte?

GB: E arte pode ser moda também. Acho que depende do que está sendo proposto. Hoje a moda é muito mais um comércio, a arte é muito mais um comércio, tudo depende da direção do que está sendo proposto. Mas, no fundo, tudo acaba mesmo no giro comercial, que é o óleo da sobrevivência do mundo capitalista em que vivemos. De que adianta se você faz uma linda pintura, uma linda escultura, se não existe o interesse? É muito complexo determinar o que é arte e o que não é arte, hoje.

DF: Como você expressa a sua identidade através das suas direções criativas de moda ou nos seus trabalhos como designer gráfico? Qual a “assinatura” de Giovanni Bianco comum a cada uma delas?

GB: Só a paixão e o profissionalismo. Não tenho uma “assinatura” propriamente dita, tenho apenas a felicidade de ver que aquilo que eu faço está servindo para alguma coisa. O meu trabalho é comercial, presto meus serviços para que os meus clientes fiquem felizes e que seus produtos sejam sucesso de desejo e de venda. Esse é o meu gol. Então, nesse caso, essa poderia ser a minha assinatura.

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