SEMPRE NÃO À ANOREXIA

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Na semana que acontece o Fashion Rio Verão 2013, a agência Star Models Brazil lança campanha impactante contra a anorexia dizendo: Você não é um croqui!

Apesar do choque com meninas tão esquálidas, a informação é de que as imagens foram photoshopadas para garantir tal aspecto às modelos. Aliás, com menos intensidade, é o que usualmente acontece nas páginas das revistas. Ou vinha acontecendo…

Porque o que se vê é um impulso valorativo de modelos magras mas saudáveis, corpos do tipo Izabel Goulart, Alessandra Ambrósio, Ana Cláudia Michels ou Gisele Bundchen. Brazilian curves substituindo gradualmente o padrão heroin chic das passarelas no mundo todo. Visão otimista? Talvez. Pois ainda não é possível comemorar: se não, campanhas como essa não existiriam mais.

Na edição Corpo do Pensamento, da revista F. Cultura de Moda,  em setembro de 2012, publicamos uma matéria sobre o assunto – não só a respeito da anorexia, mas da ditadura de um padrão de beleza (qualquer) imposto pelas revista de moda mundo afora.

Confira:

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O ideal feminino contemporâneo no auge de seu anorexismo. Por Daniel Varotto

A editora-chefe da Vogue Itália, Franca Sozzani – sempre muito sensível às questões da saúde mental -, pronunciou-se em Harvard, dia 9 de abril deste ano, com um discurso sobre os distúrbios alimentares das adolescentes.

Após tratar o assunto sob os pontos de vista sociológico, psicológico e até genético, ela abordou a questão da moda e seus valores. Já é praxe a indústria fashion produzir uma geração de adolescentes frustradas. Os editoriais glorificam a magreza extrema, com peças pouco acessíveis. Mas onde isso começa exatamente, como valor estético primeiro?

“O corpo contemporâneo é de natureza cyborg. Do marca-passo ao implante de tatuagens subcutâneas, as modificações corporais de ordem lúdica, estética ou medicinal já são tradicionais”, afirma o sociólogo Luciano Spinelli, doutor pela Universidade Paris Descartes, em entrevista exclusiva.

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Ilustração de Daniel Varotto – Colaborou Elise Kobish

Assim, como Spinelli mesmo afirma, não é de se espantar que o corpo seja tratado pela mídia como objeto mutante, a ser adornado, vestido, maquiado, mascarado – ora magros demais, ora com curvas, ora plus-size. “Na prática, fazemos corpo com a roupa e, com outros adereços que nos vestem, um estilo, domesticando a nudez” – analisa.

Franca Sozzani associa o problema da magreza excessiva aos designers de moda, cujos protótipos são feitos para esses corpos. E, além disso, acusa os paparazzis de moda de endossarem o misticismo das modelos, isolando-as ainda mais do mainstream e seus corpos tão “normais”.

As revistas dão imagens consumíveis da beleza e da feminilidade. Afirmam o estilo da femme fatale, da sex and the city woman, que parece poder ser obtido com roupas, sapatos, cremes, cirurgias plásticas e, é claro, dinheiro.Mas, muitas vezes, elas não se adequam ao genótipo da maioria da população” – constata Luciano.

A editora de moda do The Washington Post, Robin Givhan, possui outra explicação para esse cenário. O supermagro seria “in porque a moda representa um mundo de fantasia e ilusões, onde aquilo que é exaltado é o exato oposto da nossa realidade entediante: uma massa obesa crescente.

Karl Lagerfeld (estilista da Chanel), mestre dos discursos agressivos contra a obesidade, a favor da ultramagreza, despreza as críticas mais recentes sobre os hábitos alimentares das modelos: “Essas (as que criticam) são múmias gordas que, sentadas com suas batatas-fritas em frente à televisão, dizem que modelos magras são feias”, disparou, em entrevista para a Focus. “Eu nunca vi modelos anoréxicas, apenas extremamente magras”. Curiosamente, a modelo brasileira Ana Carolina Reston, de 21 anos, morta devido a anorexia – em novembro de 2006, pesando apenas 40kg –, trabalhara para o estilista.

“A possibilidade de alcançar um ideal gera um orgulho próprio. Dividir receitas com outras pessoas pela internet e revistas especializadas ajudam a criar um grupo relacional. A turma das bulímicas tem seu próprio ideal de beleza e sua forma de obtê-lo, assim como a das XXL. Quando elas dividem essa forma de ser, aceitam seu regime alimentar e o resultado, obtido como legítimo, belo”, explica o sociólogo.

Na contramão do glamour esquálido, vendido pelas revistas e passarelas, o thenuproject.com conta com proposições mais honestas: fotos de mulheres nuas, sem efeitos, sem maquiagem, dentro de seus lares. O conceito foi criado em 2005, por Matt Blum, fotógrafo baseado em Minneapolis, EUA. Em novembro, Blum vai estar no Brasil durante duas semanas, realizando shootings desse gênero em São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus.

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thenuproject.com – (c) Matt Blum

Uma iniciativa saudável?

A Health Initiative é descrita como um “pacto entre os diferentes editores da Vogue pelo mundo (…) que tende a encorajar uma relação mais saudável da imagem do corpo no meio da moda” – você pode ver os itens da iniciativa, no box.

A editora-chefe da Vogue Paris, Emmanuelle Alt, explica na sua edição de junho, a Health Initiative Issue: “Nos demos conta, não faz muito tempo, que durante o tratamento digital das fotos, começamos a fazer o inverso do que fazíamos antes: alargávamos as silhuetas. Isso foi um alerta.”

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“Qual o segredo do meu sucesso? Creme Adobe Photoshop”, diz Nefertiti. A irônica propaganda alerta para o uso exagerado do photoshop nas revistas de moda e beleza. (c)Reprodução.

A aplicação desse pacto consiste na proibição de fotos de modelos menores de 16 anos ou que apresentem qualquer evidência de problemas alimentares. Além disso, prevê-se um programa de “apadrinhamento” de modelos, um resguardo das condições de trabalho adequadas, propício à boa alimentação e repouso.

Lá, a pedra é lançada contra os criadores, “que devem pensar nas consequências de seus atos quando fabricam peças-piloto ridiculamente pequenas”. E acrescenta, sobre o papel das revistas, que a valorização de corpos estereotipados, de silhuetas radicalmente finas, pôde provocar a criação desses distúrbios alimentares. Alt completa: “Consciente da sua força de impacto, a Vogue porta a voz da razão e define, claramente, os contornos de uma beleza que floresce absolutamente na sintonia da saúde e do bem estar.”

O que segue todo esse discurso na edição é, ironicamente, uma dieta defendida pela revista e pela modelo brasileira Gisele Bündchen, “revelando, com exclusividade, que, servindo para uma top model, deveria ajudar todas as ‘girls next door’ a se sentirem mais belas e seguras de si.”

Mais espantoso do que propor o corpo de Gisele como uma alternativa à ditadura do culto ao corpo é incluir uma receita, cuja disciplina necessária é quase militar, para que as “girls next door” – garotas comuns, anônimas – se sintam qualquer coisa. Perfect girl X Girls next door. O que mudou?

Emmanuelle Alt prefere combater um modelo com outro. E o que a Vogue possui de mais forte é seu trabalho fotográfico, cada corpo sublimado à sua maneira: isso cria uma variedade de formas, volumes e linhas, mas, por conta dessa esquizofrenia, a editora-chefe prefere repetir discursos sobre o bem-estar com receitas inacessíveis – a menos que você, além da força de vontade, ganhe por volta de R$15 mil por mês.

Imagine a moda numa sociedade matriarcal. Esse modelo, tido como primitivo, associado a delírios sexuais, sobretudo, acabou ficando à deriva e, se há ainda representantes, são as amazonas – do grego a-mazos, que significa “sem seio”, cuja tradição era cortar o seio esquerdo ou queimá-lo, para se ter mais mobilidade com lanças e arcos, sem obstrução.

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Mas não existe indicação de tal prática nas obras de arte, que as representam com ambos os seios, mas frequentemente sendo o esquerdo coberto. As amazonas faziam sonhar os homens mais corajosos, até o espectro de princesas de reinos distantes. As representações femininas respondem, sobretudo, ao desejo masculino, imperativamente, mais do que a uma necessidade de identificação coletiva das mulheres. Essas imagens representariam os perigos de ceder aos desejos íntimos e de independência ou o condicionamento a um estilo de vida mais quadrado. Você é Lilith ou Eva?

O século XX vê o nascimento dos maiores paradoxos do ideal feminino: a mulher-garoto dos Années Folles (Louise Brooks), a mulher vampiresca dos anos 30-40 (Marlene Dietrich); a rainha do lar dos anos 50-60 (Maureen O’Hara); a mulher livre dos anos 60-70 (Janis Joplin); a andrógina dos anos 80 (Annie Lennox) até a pin-up dos anos 2000 (Megan Fox). Nunca o estilo feminino foi tão diversificado.

A estética da magreza também é fruto de uma muito mais depurada, assim como no design e na informática. O corpo se torna objeto, quando possui uma função exacerbada. Mas, como afirma Luciano, “ter um corpo de acordo com estereótipos de beleza é uma forma de estar de bem consigo mesmo. O problema é que o modelo é determinado pela sociedade, indústria da moda, academias, e não pela própria pessoa” – finaliza.

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A revista F. Cultura de Moda é uma publicação da F.Works Produtora de Moda de Juiz de Fora – MG. Todas as edições completas você confere no link: www.fworksprodutora.com.br/revista-f