INCOMING: LAILA SOARES

Dizem que uma revolução está sendo tramada nos bastidores do Facebook. Será?

Se é via “inbox” que acontecem algumas conversas miúdas, sem importância, é de lá também que saem boas ideias e, ainda, projetos são discutidos – quem faz a ferramenta é a gente mesmo.

A ideia da coluna “Incoming”, na Revista F. Cultura de Moda, é lançar para o público uma nova geração de designers. Começamos com os estilistas da Casa de Criadores e passamos para criação local. Todas as edições você encontra novos talentos a caminho…

E já que estou observando muita gente há muito tempo, não pude deixar passar despercebida a nova criação da conterrânea Laila Soares. Infelizmente, pautas fechadas, já não dava mais para incluir a moça nessa edição que será lançada em maio. Por isso virou post no blog da F.Works.

De Juiz de Fora para Paris, Laila completa quatro anos na capital francesa e me contou sobre seu processo criativo e sobre sua marca, ainda sem nome. Seu talento é evidente e rendeu um bate-papo bacana. “Não tem foto boa minha”, ela diz, quando peço uma imagem sua para ilustrar o post. Ah, então tá, Laila. 🙂

Sobre a sua coleção, a estilista conta que existe um fio condutor em todas as suas criações:  as roupas são a extensão material e palpável de um estado de espírito. Para o outono/inverno 2014 ela imaginou a extensão da nossa própria casa. “Chez moi” – que em francês designa “em mim” ou “na minha casa”.

“A casa é ao mesmo tempo protetora e reveladora de si mesmo e no interior dessas “roupas-casa”, o indivíduo toma o lugar dos móveis”, explica. E é por esse motivo que a estilista utiliza madeira para executar os acessórios.

Uma casa modernista brasileira serviu de inspiração para as formas, geométricas e bem-definidas, quase sem decoração. “É um diálogo com o interior e o exterior, utilizando concreto aparente e uso plural do mesmo espaço”, afirma. Tais características são traduzidas em peças com acabamento à fio, transparências, aberturas e trançados. Muitas delas são dupla-face.

Na cartela de cores, preto, branco, cinza, azul marinho e bege. Os tecidos são brutos, como a lã de aspecto acarpetado e o neoprene. Um contraponto à fina organza de seda e o tule, também trabalhados na coleção.

  Raquel Gaudard

A decisão de morar fora tem a ver com a moda?

  Laila Soares

Tem a ver com a vontade que eu sempre tive de morar aqui, mas a vida foi empurrando pra frente. Em 2008 eu fechei a minha marca (Credo!) e fui morar em São Paulo para trabalhar com o Pedro Lourenço, mas logo ele resolveu se mudar para Paris. As opções que eu tinha depois disso eram: ou eu reabria a minha marca e começava do zero, ou trabalhava pra algum outro estilista, ou eu parava pra repensar tudo. Optei pela última situação porque eu abri a Credo! muito cedo, no susto, e também não tinha vontade nenhuma de trabalhar pra outra pessoa.

 Raquel Gaudard

Você continua trabalhando autoralmente, desde então? Essa coleção mais nova ainda seria “filha” da Credo!?

 Laila Soares

Não, é o meu primeiro trabalho desde q eu parei a Credo! em 2008. Essa coleção é a abertura de uma nova marca que não tem nome ainda. De 2008 até hoje só fiz o colar do vídeo da banda Loki Starfish, dirigido por Daniel Varotto.

  Raquel Gaudard

Ah, não tinha ficado clara para mim essa questão da Credo!. Imaginei que você a tivesse “ressucitado” , rs. Mas já tem ideia de qual será o nome da nova marca?

 Laila Soares 

Eu ia ressucitá-la mesmo, mas o nome Credo! já tem registro aqui. E no final das contas é melhor começar de novo. Credo! era outra coisa, tinha um humor que não funciona aqui e em francês a pronúncia não é bonita. A cada vez que eu tenho uma ideia, ela já foi registrada por alguém… mas vou escolher algo em português.

 Raquel Gaudard

O que te motiva a fazer moda?

  Laila Soares

A “obrigação” de estudar sempre, pensar em temas e aprender coisas relativas a ele. E fazer roupas que eu quero usar!

 Raquel Gaudard

E você usa o que você faz?

 Laila Soares

Uso, às vezes eu faço só para mim e testo. Se as pessoas gostam, eu ponho na coleção. Tirando as coisas muito curtas que a idade já não permite mais…

 Raquel Gaudard

Quais são os seus “skills”, digo, na realização de uma peça você faz o projeto e também o executa?

 Laila Soares

Não, eu desenho mais ou menos, aliás, eu desenho bem mal mesmo, só para não esquecer a ideia. Nessa coleção eu pedi pra uma amiga desenhar pra mim porque aqui as coisas são mais profissionais e as costureiras precisam de ficha técnica. Depois eu fico com a costureira durante toda a fabricação, para poder explicar tudo o que eu não consegui desenhar, ou pra aproveitar os “erros” de interpretação nos desenhos que às vezes são melhores do que a ideia inicial. Mas eu sei cortar, pregar botão, passar… só não sei desenhar e costurar.

 Raquel Gaudard

E quer aprender?

  Laila Soares

Eu fiz curso de costura aqui, só para ter uma noção dos limites que eu tenho. Desenhar eu não tenho paciência, nem talento. Aliás, eu não tenho paciência pra nada, eu queria aprender moulage, para fazer a roupa sem ter que desenhar.

 Raquel Gaudard

Qual a sua formação?

  Laila Soares

Artes pela UFJF e metrado em Artes e Pensamento Contemporâneo aqui, em Paris,  mas ainda não entendi o que seria pensamento contemporâneo…

  Raquel Gaudard

Talvez a sua roupa seja um reflexo dele…

 Laila Soares

Talvez… já que o pensamento contemporâneo como eu entendo é livre. Você pode fabricar a imagem de você mesmo como quiser, você tem o direito de ser o que você quiser e de mudar todo dia.  E é por isso q eu não uso meu nome como nome de marca, para ter o direito de mudar sem ter de me explicar. Se eu quiser abrir uma outra marca, que não tenha nada a ver com a primeira, eu posso. Se eu vender a marca não fui eu quem foi vendida.

 Raquel Gaudard

É mais fácil fazer roupa em Juiz de Fora ou em Paris? Digo, como brasileira, quais as dificuldades que você encontra por aí?

 Laila Soares

É mais fácil em Juiz de Fora, porque a relação que eu tinha com as costureiras era mais próxima. Eu sabia onde achar o que eu precisava e tudo é muuuuito mais barato. Mas aqui é mais fácil em termos técnicos, tem mais opções de tecido, as costureiras são formadas em boas escolas e todos os salões de tendência, tecidos e aviamentos estão aqui.

  Raquel Gaudard

A última perguntinha: quem ou o que te inspira?

 Laila Soares

Tudo me inspira, menos a moda.

  Raquel Gaudard

Nunca?

  Laila Soares

Eu gosto de muitos estilistas, mas eu nunca olho muito o que eles fazem. É mais um desejo de poder ter o que eles fazem, desejo de consumo mesmo. Para criar, não. Se eu olho muito me desestimula, porque eu vejo que tudo já foi feito e que tem gente muito melhor do eu.

—-

“Un train peut en cacher un autre”No caso de Laila, vem boa coisa por aí. 

Anúncios